Por Eduardo Jardim

Em 2012, em uma reação ao choque de se saber soropositivo, o poeta Ramon Nunes Mello iniciou um levantamento amplo da produção poética brasileira das últimas décadas sobre o HIV e a soropositividade. Vale lembrar que a carta em que Ramon declarou publicamente que é soropositivo poderia ser um destaque desse repertório, se ele assim consentisse, pois tem uma maneira muito própria de tratar do assunto e é de grande valor literário. O resultado dessa empreitada está registrado nesse livro, vibrando com uma energia que explode em muitas direções. Primeiro, do ponto de vista cronológico, o livro acolhe desde poemas dos anos oitenta, quando a soropositividade significava em geral uma condenação à morte, até os dias de hoje, da era pós-coquetel. Em segundo lugar, o livro não faz nenhuma discriminação de gênero ou de orientação sexual dos seus autores – homens, mulheres, trans, gays, héteros atenderam ao mesmo chamado da poesia. Por fim, há também uma explosão de reações e de sentimentos: não seria mesmo possível igualar o tom combativo presente em muitos poemas atuais e o ânimo abatido de 30 anos atrás.

Minha lembrança mais antiga é de uma mesa de bar, em 1983, quando recebemos a notícia da chegada avassaladora do “câncer gay”. Não havia poesia naquela ocasião. Líamos, assustados, os laudos dos exames de laboratório, o noticiário ameaçador e os anúncios de morte. Quantas? Não sei mais - um ex-namorado, amigos, paqueras, famosos e desconhecidos. Depois, uma nesga de esperança, já no final dos anos oitenta - a descoberta do vírus e o AZT. Mais tarde, apareceria o coquetel, a triterapia, provocando um grande desafogo.

A epidemia da Aids, além de, sobretudo no início, trazer a morte e as doenças, imprimiu a marca da precariedade em nossas mentes e corações. Até então, os de minha geração e de meu grupo, alguns com seus projetos revolucionários, outros com muita droga, ignorávamos que o tempo existia. Com a Aids, o sentido de um término se impunha, e, com isso, chegamos a perceber que estamos inexoravelmente imersos na grande passagem.

Não à toa, o principal assunto dos poemas que Ramon nos apresenta é o tempo – o da antecipação do fim, o ritmo da tomada dos remédios, a expectativa com a chegada de novas drogas, o tempo de formas de amor muitas vezes impacientes.

E não seria o tempo o elemento em que se move propriamente a poesia? Ao escrever ou ler poemas sentimos como que uma suspensão da monotonia dos “agoras” que se sucedem; por causa disso, não somos exilados do tempo, mas temos acesso a uma dimensão sua mais essencial.

É preciso saudar o lançamento de Tente entender o que tento dizer. Além de suas qualidades intrínsecas, ele é como o primeiro passo de novos caminhos a serem explorados pelos poetas e seus leitores – os únicos que poderão apontar para uma reconciliação com a época difícil que vivemos.


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