Por Eduardo Coelho¹, publicado originalmente no posfácio do livro de poemas “Há um mar no fundo de cada sonho” (Verso Brasil, 2016), de Ramon Nunes Mello

Tempo e espaço navegando todos os sentidos
“Tempo rei”, de Gilberto Gil

Publicado em 2009, o livro de estreia de Ramon Nunes Mello intitula-se Vinis mofados e divide-se em duas seções, “Lado A” e “Lado B”. Embora pertecente à era digital, o poeta escolheu um suporte antigo como base de organização dessa obra. Trata-se de um anacronismo potencializado mediante o uso da palavra “mofados” no título, que compreende o sentido figurado de algo fora de moda. Contudo, a palavra “mofados”, quando associada a “vinis”, traz consigo a evidente influência de Caio Fernando Abreu, autor do romance Morangos mofados, de 1982, que já havia estabelecido diálogos com a música popular brasileira. 

Como destaca Heloisa Buarque de Hollanda na orelha da edição, “a palavra dita, a palavra sentida, a palavra silenciada, a palavra excessiva vem, de maneira muito explícita, articulada à palavra cantada”. Nessa articulação, torna-se claro o intento de valorizar uma tendência sentimental, presente em Caio Fernando Abreu, mas também recorrente em alguma poesia brasileira contemporânea, como a de Ana Martins Marques, Eucanaã Ferraz, Fabio Weintraub, Ismar Tirelli Neto,

Leonardo Gandolfi, Renato Rezente e Ricardo Domeneck, cada qual com seu repertório criativo específico.
Em Vinis mofados, junto desse teor sentimental é possível constatar, sobretudo no “Lado B”, uma forte adesão à espontaneidade, que alcança cores típicas da geração mimeógrafo, muitíssimo influente entre jovens poetas do Rio de Janeiro surgidos nos anos 2000. Exemplo notável disso é o poema “Control+Alt+Del”:

medito paro de
fumar ouço rorô ana
carolina

acendo vela canto
pra oxum faço
de tudo

pra apagar você
da memória fechar
conflitos

Os versos curtos revelam um tom informal, íntimo e confessional, bem como um cenário de forte sentimentalidade, com direito a referências ao fumo, a cantoras de dor de cotovelo e à Oxum, orixá que atende aos sofrimentos do coração.
Em Poemas tirados de notícias de jornal, publicado em 2012, o poeta distanciou-se da palavra cantada de Vinis mofados para lançar-se aos faits divers. No entanto, não se desvinculou inteiramente da música: logo após o sumário, há uma informação que matém o vínculo com as canções: “[escrito] ao som de Old Ideias, de Leonard Cohen”², lançado nesse mesmo ano. É o seu canto das musas, de voz gravíssima.

O “Poema atravessado pelo manifesto sampler” também recupera a articulação anunciada por Heloisa Buarque. Sua posição estratégica, na abertura do livro, é um aspecto que não pode ser esquecido. A partir do sampler, equipamento que grava e armazena sons, Ramon Nunes Mello elaborou a técnica-base para compor seus versos. São muitos os dados jornalísticos coletados, adulterados e arranjados, valendo-se também, dessa maneira, do modernismo brasileiro em diálogo com o jornal. Atravessado pelo “Manifesto sampler”, de Fred Coelho e Mauro Gaspar, há diversas orientações programáticas desenvolvidas por Ramon:

não copie e cole
se aproprie e recrie a realidade
use seu imaginário
carta de alforria para um primeiro
ato.³

No presente volume, Há um mar no fundo de cada sonho, algumas características dos títulos anteriores foram reativadas. No entanto, elas também sofreram transformações, provenientes especialmente de uma nova matriz de sua poética, que apresenta algo de xamanismo e algo de new age.[4] Assim, por meio da aproximação de um mundo da transcendência, estes poemas compreendem outra imagética, distante das cenas urbanas predominantes nos dois primeiros livros de Ramon Nunes Mello. Agora, são os mundos natural e sobrenatural que ganham espaço, compactuando entre si.[5] De alguma maneira, sua nova imagética parece consequência e radicalização de um mesmo princípio adotado anteriormente, que é a valorização de outras temporalidades, como os vinis mofados e as notícias de jornal. Tal processo valorativo manifesta um culto às coisas que não estão submetidas ao fácil descarte. O que se deseja é a permanência, a exigir uma desaceleração do fluxo temporal.

No título de estreia, a desaceleração pode ser observada na tentativa de recuperar o suporte anacrônico (retorno a um passado recente, mas que a princípio soa muito distante), em que a organização do livro em duas seções, “Lado A” e “Lado B”, pressupõe uma interrupção no andamento de textos e um reposicionamento do leitor diante dessa obra. É um momento de escuta do silêncio.

Em Poemas tirados de notícias de jornal, o mesmo princípio foi adotado por meio da apropriação, que requer um rigor investigativo e seletivo dos faits divers. Estes, por meio do ato poético, perdem sua celeridade e seu teor informativo, quase sempre esquecido num intervalo curtíssimo. Além disso, uma das estrofes finais desse livro exige uma reflexão sobre o tempo, que se revela muito mais central e prioritária em sua terceira reunião de versos:

 

pense no tempo

em nosso tempo

tempo

tempo

tempo

tempo[6]

 

Entretanto, é outro o tempo e o espaço de Há um mar no fundo de cada sonho: trata-se de um tempo não cronológico, absolutamente avesso aos princípios jornalísticos. Não está mais em cena o “nosso tempo”, relacionado ao presente. Ao contrário, o tempo é sobretudo mítico, concebido de modo cíclico, como em “irrupções poéticas” (“o que/ aconteceu no passado/ sempre acontece de novo”) e “quando olho a lua” (“senhora das marés/ conduz todo ritmo ensinando/ a compreender os ciclos”).

Não à toa, muitos de seus textos revelam um pacto do sujeito com o silêncio, frequentemente associado à contemplação do mundo natural e transcendental: uma planta cresce (“semente”); o “ritmo da natureza” é acompanhado pelo sujeito (“silêncio”); as folhas o “ensinam a lidar com/ o tempo” (“ensinamentos naturais”); a “turbulência mental” precisa “cessar” (“meditação”); a lua é adorada (“quando olho a lua”); “deus vulcão” é contemplado (“jesúvio”); o eu lírico ausculta o tempo “marcado pelo coração” (“labaredas”); gestos dos antepassados são repetidos (“antes de mergulhar”); “o perdão/ desmorona o tempo” (“quando”).

Ao elaborar sua poética mediante um estado de contemplação do mundo, a visão é, dos sentidos humanos, o mais destacado. O eu poético admira, contempla, olha e mira – a natureza e o sobrenatural. O campo da visualidade, contudo, ultrapassa os limites do que pode ser observado pelos olhos, pois o corpo se dedica principalmente à conquista da transcendência e à resistência ao instinto de morte, combatido em diversas páginas.

É justamente daí que todos os sentidos aparecem, reunidos. Desse lugar outro, imaterial, a plenitude alcançada ressoa em expressões que se repetem como mantras: “semelhantes curam semelhantes curam semelhantes curam semelhantes curam semelhantes curam”, de “veneno-curativo”. Apenas o último verso-linha apresenta uma supressão, a do verbo “curam”, fechando o texto ciclicamente: “semelhantes” é o vocábulo que abre e fecha o poema. Esse verso, que persegue por inteiro a linha da prosa, repete-se 44 vezes, sendo portanto a enunciação em série o mais novo elo que Ramon estabeleceu com a música. A fórmula mística do mantra substitui a música popular brasileira, que agora não está presente em sua lírica.

No “mantra” desse e de outros poemas existe uma dimensão ecológica-religiosa. Uma vida colaborativa e harmônica é invocada em forma de orações, às vezes até mesmo à moda de versículos, com mensagens compactadas e ricas de simbologia. Os versos chegam a se organizar como oferendas, o que pode ser observado em “fim”:

 

a liberdade do louco

começar do zero

caminhar com a força

do amor e das leis do universo

 vinho das visões prodigiosas

ofereço minhas palavras

 para sempre

a escrita do silêncio

 dai-me

Dessa maneira, a experiência ecológica-religiosa se encontra na esfera das grandes revelações. As palavras também foram assim concebidas, como um néctar, uma bebida dos deuses. Em “da sensibilidade e outras percepções agudas”, revela-se que “há/ um sol/ dentro de/ cada palavra”. Contudo, nenhuma epifania seria conquistada se não houvesse a natureza. Entre outros meios, a epifania se manifesta pelo “movimento/ dos girassóis, num dia nublado”. A epifania está em todas as coisas e, para alcançá-la, basta contemplar e estar disponível a elas. Sob tal aspecto, a poética de Ramon Nunes Mello está revelando uma abertura ao mundo, uma aceitação das diferenças, que não devem ser julgadas, mas admitidas e harmonizadas com a totalidade.

A natureza ainda ocupa o lugar de Grande Mãe, autônoma, que “basta por si” (“aqui onde estou”). É ela quem ensina, como as folhas em “ensinamentos naturais”; é para ela que deve se viver. Dessa ética nascem índices de religiosidade. Assim, por meio do vínculo estabelecido entre o natural e o sobrenatural, combate-te o medo e conquista-se o equilíbrio do sujeito, uma experiência recorrente no livro. Forma-se uma tríade entre o natural, o sobrenatural e o autoconhecimento.

Com a finalidade de combater o preconceito, em “O sentido de urgência: a necessidade de se conversar sobre o HVI”, publicado no site da revista Carta Capital a 1o de dezembro de 2015, Ramon Nunes Mello revela publicamente que está soropositivo. Destaco o seguinte trecho do depoimento, esclarecedor para compreender a nova orientação de sua poética:

O que mudou [depois da descoberta da contaminação com o vírus da AIDS]? Inúmeras coisas, principalmente no que diz respeito ao amor próprio. A conexão com o que me fortalece se aprofundou: a linguagem literária como busca e forma de vida; a prática do yoga, da meditação e do silêncio com mais profundidade; o exercício da minha fé na comunhão com a natureza, através da ayahuasca – planta mestra, enteógeno, que ensina a valorizar o ouro das palavras e a ancorar a presença no corpo. Aceito o chamado, integro o medo, confio em minha transformação e agradeço a chegada de dias auspiciosos, em busca de amor, liberdade, humor, paz, alegria e solidariedade.[7]

Contudo, ao lado da busca por equilíbrio, revelam-se tensões. A própria obra contém um “caráter/ de urgência” e consiste num “testemunho de um/ sujeito// diante do abismo”, conforme “fé”, mas sem aderir a qualquer tom dramático ou vitimizante. Como o título alerta, “há um mar no fundo de cada sonho”. No interior do livro, o poema “leme” apresenta o título fraturado em versos, apenas sofrendo o acréscimo de “(sempre)” depois do verbo haver. Este mar e este sonho estão (sempre) abertos a muitos sentidos. Talvez seja possível vislumbrar um que se encontra mais presente: sua poesia busca se aproximar do que existe de mais vivo, tornando-se um dos aspectos luminosos de Há um mar no fundo de cada sonho.

. . . . .

 

[1] MELLO, Ramon. Control+Alt+Del. Vinis mofados. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. Coleção Língua Real, p. 87.

[2] Idem. Poemas tirados de notícias de jornal. Posfácio de Eduardo Jardim. Rio de Janeiro: Móbile Editorial, 2012. p. 7.

[3] Ibidem, p. 11.

[4] Em trabalho apresentado originalmente como Conferência Anual Robert Hertz, organizada pela Association pour la Recherche en Anthropologie Sociale em 1997 e posteriormente integrando o livro Cultura com aspas, Manuela Carneiro da Cunha propõe que, em nossos dias, “um outro exemplo [de xamanismo] estaria nos grupos urbanos de tipo new age. O crescimento do xamanismo pode se manifestar, assim, no interior de certos grupos indígenas, em movimentos milenaristas, mas também no meio urbano, na maioria das vezes [...] com técnicas heteróclitas que se autoproclamam tradicionais.” Cf. CUNHA, Manuela Carneiro da. Xamanismo e tradução: pontos de vista sobre a floresta amazônica. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac & Naify, 2009. Coleção Ensaios, p. 102-103.

[5] A poesia brasileira contemporânea tem manifestado um retorno à natureza. Nesse sentido, Ramon Nunes Mello segue caminho similar aos de versos de Alberto Pucheu, Cláudia Roquette-Pinto, Leonardo Fróes e Sylvio Fraga Neto, sem esquecer de Manoel de Barros, que faleceu em 2014. São poéticas que buscam particularizar uma relação entre poesia e natureza, entre técnica e espontaneidade.

[6] Ibidem, p. 21.

[7] MELLO, Ramon Nunes. O sentido de urgência: a necessidade de se conversar sobre o HVI. Site da revista Carta Capital. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html>. Consultado em: 4 de janeiro de 2016.

 


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