Críticas e Resenhas 

A sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade

José Castello [Agosto de 2016]
 

A sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade

 

Começo, nesse mês de agosto, a quinta edição de meu “Estúdio do Conto”, oficina regular de narrativas breves que dirijo na Estação das Letras, Rio de Janeiro, sob a inspiração firme de Suzana Vargas. Não atuo como professor — nada tenho, de fato, a ensinar. Ao contrário: meu projeto não é transmitir regras, padrões, truques, princípios. Mas ajudar os alunos — a cada um deles — a encontrar sua própria voz. Aquilo que costumo chamar, de uma maneira simples, de “voz interior”.

Livros sempre vêm em meu socorro. Lendo Há um mar no fundo de cada sonho, de Ramon Nunes Mello (Verso Brasil), encontro, na página 51, um pequeno — e iluminado — poema que ajuda a ilustrar meu projeto. O poema se chama A mudança. Escreve Ramon, em versos curtos, mas certeiros: “está/ na força de prevalecer/ no ser”. E, logo abaixo, conclui: “ancorar a presença no corpo”. E é tudo: o poeta não precisa dizer mais nada. Mudar, portanto, não é transformar-se em outra coisa, mas chegar àquilo que já se é. “Cair em si”, como costumo dizer. É tudo o que tento (não sei se consigo) ajudar meus alunos (mas a palavra não é esta) a fazer.

A sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade. Tudo deve ser inédito, surpreendente, sem precedentes. Tudo deve sempre se mexer e se modificar. A literatura ensina, no entanto, que o mais difícil não é transformar-se nisso ou naquilo — escrever à maneira de fulano, ou de beltrano —, mas, em vez disso, perseverar (Ramon diz: “ancorar”) naquilo que já se é. Chegar a si, livrando-se de todos os adornos, automatismos, máscaras, disfarces que o mundo de hoje nos obriga a vestir para sobreviver. “Prevalecer no ser” — para usar, mais uma vez, as palavras de Ramon. Isto é: conservar-se, persistir, insistir, de maneira intransigente e firme, naquilo que se é. Só assim a voz interior pode enfim nascer.

Não é nada fácil essa “queda em si”. O mundo contemporâneo nos diz, sempre, que devemos vestir a última grife, adotar o último estilo, experimentar a última sensação. Em outras palavras: que devemos pular para fora de nós mesmos — o que não deixa de configurar uma forma dócil, e voluntária, de traição. A palavra chave de nosso mundo é “adrenalina” — o hormônio que eleva a pressão sanguínea e estimula as respostas fisiológicas rápidas. Saltar para fora de si — exibir-se numa grande performance — é o que todos desejam. É o que nosso mundo miserável exige de nós. Ali, queimando-se no fogo da adrenalina, muitos acreditam se realizar.

Cada um sustenta as próprias palavras. E é esse peso, da palavra própria, que confere singularidade à escrita.

Na contramão, resistindo como podem, com leveza e lentidão, caminham a literatura e a arte. A luta exige não apenas persistência, mas vigor. Repito Ramon: “está/ na força de prevalecer/

no ser”. Em vez de atirar-se para fora mergulhando em experiências da moda, em vez de embriagar-se com os apelos do mercado ou das “aventuras radicais”, persistir em si, “ancorar” (Ramon) no próprio corpo e dali não arrastar pé. É o que tento fazer com meus alunos — mas a palavra, em definitivo, não é essa — alunos —, e admito que não sei que palavra usar. Talvez deva dizer apenas: “aqueles que me acompanham”. Companheiros, portanto. Parceiros.

O que tentamos fazer juntos? Ler e reler e reler, discutir e discutir e discutir, sentir ao esgotamento os contos que cada um dos participantes está produzindo. Exercitar, portanto, a experiência da parceria. É um trabalho coletivo — uma espécie de escrita grupal, talvez, embora a última decisão, é claro, fique sempre para o autor. Sim: porque investimos firme na ideia de autoria, outra noção, aliás, desprestigiada pelos contemporâneos, que preferem ver os escritores como “produtores de texto” — coelhinhos que reproduzem obras em série. No estúdio, cada um é, ao contrário, dono de sua voz. Com a ajuda de todos, devem tentar encontrá-la. Cada um sustenta as próprias palavras. E é esse peso, da palavra própria, que confere singularidade à escrita.

Logo: não trabalho com apostilas, manuais, compêndios, livros de referência. Não tenho princípios, ou métodos didáticos. Não existem exercícios, provas, correções, notas, aferições. Nada que se pareça com uma escola. Nada mesmo. Talvez uma antiescola. A ideia não é chegar ao “certo”, mas ao que Ramon chama de “presença do corpo”. Cada um luta para voltar a si — como de um desmaio. Cada um se empenha, com a ajuda de todos, em perseguir não a moda, ou a correção, ou “o que vende”, mas suas próprias palavras. Nenhum valor às listas de mais vendidos, às premiações, às consagrações: a escrita é uma experiência absolutamente individual, e como tal deve ser experimentada. Como um segredo inegociável.

É muito belo ouvir a divergência de opiniões, de leituras, de interpretações. É muito estimulante saber que, enquanto lemos e discutimos, apostamos em um valor — hoje infelizmente tão ameaçado: o pluralismo. Quer dizer: a liberdade para cada um ser o que é, e nada mais. Retrocedendo à página 24 do livro de Ramon, esbarro em outro poema, Fé, que me ajuda a pensar. “Todos os livros têm caráter/ de urgência”, ele escreve. “O testemunho de um/ sujeito/ diante do abismo”. É do abismo do si que se trata. Esse “mundo sem fundo” que, inocentes, carregamos dentro de nós. Por isso, todo livro é um livro interminável. O encontro com a própria voz é uma experiência de risco, que se assemelha a lançar-se de um despenhadeiro. Só que você não cai para fora, cai para dentro. Cai em si — volto a dizer.

Nem todos os participantes de meu estúdio conseguem se entregar. Alguns resistem — outros partem antes do tempo. Alguma coisa, mesmo assim, deixam para trás. Está no poema seguinte de Ramon, batizado Viagem: — “deixou o/ coração/ desnudado sobre/ a cama/ partiu”. Alguma coisa sempre se revela. Alguma coisa fica — e fica para todos. Eis a vantagem da experiência coletiva: cada um colhe o que pode, do jeito que pode, no momento em que pode. As descobertas são lentas e imprevisíveis. Daí o nome: estúdio. “Espaço onde os artistas projetam ou realizam seus trabalhos”, o dicionário define. Não basta fazer: é preciso se arriscar a fazer (é preciso projetar). O dicionário oferece ainda bons sinônimos para o verbo “projetar”: “atirar-se à distância”, “arremessar-se”, “lançar-se”. Eis o abismo do qual não se

pode fugir. Desfiladeiro interior, onde as verdadeiras palavras nos esperam. São essas palavras que, juntos, enfrentamos.

José Castello é escritor e jornalista. Autor do romance “Ribamar”, entre outros livros. Vive em Curitiba (PR).


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