Críticas e Resenhas 

Paixão por poesia, política e empatia social dão o tom da mesa ‘O palco e a página’ 

Sérgio Luiz
Jornal O Globo

Numa vazia Tenda dos Autores, a mesa “O palco e a página”, com o poeta Ramon Mello e a escritora, rapper e dramaturga inglesa Kate Tempest, encerrou a programação deste sábado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O pouco público presente, no entanto, acompanhou um bate-papo apaixonado sobre a musicalidade da poesia, com leituras instigantes e engajamento, tanto pela literatura quanto por temas de apoio a minorias e causas sociais, como frisou Mello ao tomar a palavra: “Queria dedicar essa fala a dois grupos que são importantes e estão sendo exterminados no Brasil: os homossexuais e os índios.”

Kate Tempest e Ramon Mello encerraram o sábado em Paraty - Alexandre Cassiano / Agência O Globo

 No início do debate, mediado pelo jornalista Daniel Benevides, ele comentou o constrangedor encontro de ontem à noite, quando cometeu uma gafe ao chamar a jornalista peruana Gabriela Wiener de “devassa” e afirmar que ela não era “uma mulher de família”.

- Como dizem, a segunda vez é melhor - brincou, antes de apresentar os convidados. - Apesar de jovens, os autores aqui presentes são muito talentosos, com obras bastante consistentes - disse Benevides.

E essa consistência pôde ser vista na performance elétrica de Kate, que acaba de lançar no Brasil seu primeiro romance, “Os tijolos nas paredes das casas” (Casa da Palavra). A inglesa de 31 compartilhou com a plateia como iniciou sua vida artística, que passa por música, teatro e literatura.

- A musicalidade do meu trabalho veio do lirismo do hip-hop, quando descobri a possibilidade de me comunicar através da música. A ideia de que a língua tem que viver numa página é um absurdo para mim. Um poema tem que ser lido, tem que arder com intensidade. Você não pode olhar passivamente para um poema. Ele tem que ganhar vida e explodir. Um poema é algo inacabado antes de ser ouvido - bradou Kate.

Bastante presente em sua obra, a mitologia aparece nos versos da autora como uma maneira de conectar as pessoas com uma força ancestral comum.

- Vivemos num tempo em que estamos desconectados. Sentimos falta de uma experiência compartilhada, de uma conexão com nosso passado que possa nos conectar com o presente e fugir da neurose que essa era nos inflige. Vivemos de maneira desumana e anti-natural, e acredito que a música e a poesia têm o poder de nos unir. Sou uma estranha aqui, mas me sinto parte desta tenda e de vocês - disse a escritora britânica, bastante aplaudida.

Num dia que contou com a bielorrusa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de Literatura de 2015 por sua literatura investigativa e empática sobre guerras e desastres ambientais, a mesa que encerrou o quarto dia de Flip foi uma das mais humanas e calorosas. Mello, que que é HIV positivo, falou sobre a criação do recém-lançado “Há um mar no fundo de cada sonho” (Verso Editora).

- Comecei a escrever esse livro depois de receber o diagnóstico. É muito estranho, bate aquele velho clichê: nunca achamos que vai acontecer com a gente. Então, quis entender como essa condição atravessaria minha escrita. Ainda há um pudor de trazer essa questão com naturalidade - contou Mello, que fez duras críticas ao governo interino. -- É inadmissível um governo fechar ministérios como o dos direitos humanos e o da igualdade racial. Temos o melhor sistema de medicação contra a AIDS do mundo, de graça. E ainda querem acabar com o SUS. É um absurdo - disse.

Quando o assunto foi a saída do Reino Unido da União Europeia, Kate foi implacável contra o resultado do referendo.

- O Brexit foi devastador. Na era em que vivemos, devemos nos aproximar uns dos outros, mas eles preferem se isolar numa pequena e gélida ilha. Não importa se você está à esquerda ou à direita. Temos problemas ambientais e humanitários graves, precisamos pensar como seres humanos.

 

LINK DA MATÉRIA: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/kate-tempest-ramon-mello-sao-ovacionados-na-flip-19635486


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