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Incentivada a escrever por Murilo Mendes, Adalgisa Nery tem obra de volta às prateleiras após décadas fora de catálogo

POR MAURO MORAIS

 

[Adalgisa Nery em 1971. Foto: Paulo Garcez/O Pasquim] Casada com Ismael Nery, escritora tem best-seller de memórias, lançado em 1959, reeditado.

No dia 1º de dezembro de 1937, Murilo Mendes recebeu “Poemas”, livro que havia incentivado a existir. Na dedicatória: “Ao querido Murilo, toda a minha grande amizade. Adalgisa”. A partir daquelas páginas, passava a existir, também, uma autora, que, em 1943, voltou a autografar para o poeta, na folha de rosto de “Og”, sua estreia nos contos. “Ao meu grande e certo amigo Murilo. Com o mesmo abraço e a terna amizade de vinte anos, de Adalgisa”. Das 14 obras publicadas pela escritora, seis delas estão presentes no acervo do poeta juiz-forano, no Museu de Arte Murilo Mendes, todas com autógrafos. Raridades, já que há mais de três décadas sua produção encontra-se fora de catálogo. No 2015 em que Adalgisa tornaria-se centenária, quando sua despedida soma 35 anos, a editora José Olympio, de sua estreia, reedita “A imaginária” (351 páginas), romance de memórias, no qual revela, através da personagem Berenice, seu traumático casamento com o poeta e pintor Ismael Nery.

Cruel, o primeiro romance de Adalgisa demarca, justamente, o lugar que ocupa aquele que a uniu a Murilo. “A relação dela com o Ismael a marcou muito, ao ponto de ela escrever esse romance contando a história dos dois, desde o casamento, falando da relação vampiresca dele com ela. Ele não a deixava participar das coisas, ela não podia ter voz. Adalgisa começa a escrever e a publicar depois que Ismael morre, muito por influência do Murilo Mendes e do Jorge de Lima. Essa relação, ao mesmo tempo que a inspirava, a trancava como um ser à parte da sociedade, sem inteligência e sensibilidade”, comenta o jornalista e escritor Ramon Nunes Mello, curador e organizador das reedições.

“Reconstruir o próprio imaginário, por exemplo, através da escrita, é uma das formas de reachar a identidade tanto na ficção quanto na realidade”, aponta o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em posfácio analítico do romance. E foi preciso que Adalgisa se reconstruísse em diferentes momentos de sua jornada. Casada aos 16, ela teve oito filhos, mas apenas dois sobreviveram: o mais velho e o caçula. Viúva aos 29, casou-se novamente, seis anos depois, com Lourival Fontes, diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda da ditadura Vargas. Mais uma vez, a mulher se viu forçada ao silêncio. Em carta de Murilo Mendes, escrita em 15 de maio de 1971, presente em seu acervo no Mamm, o poeta comenta o casamento “forçado”. “Compreendo bem seu ato relativo ao seu segundo casamento. Como diz São Paulo, o amor cobre uma multidão de faltas e enganos. Nesse caso, o amor aos seus filhos justificou”, escreve Murilo.

Nas nove correspondências enviadas à poeta e cujos originais pertencem à Fundação Casa de Rui Barbosa, onde fica todo o acervo de Adalgisa, o poeta sempre reclama das dificuldades em relação às frequentes greves dos carteiros italianos. Também se mostra preocupado com a saúde da amiga, morta em 1980, aos 74 anos, numa casa de repouso carioca, para onde foi por vontade própria. “Lamento, mas compreendo suas angústias. Tudo é terrível. Eu também ando muito angustiado, é sempre o problema existencial, a preocupação com a inutilidade da vida, etc., tudo isso agravado pela situação da Itália atual, com sua enorme sequência de assassinatos, roubos, sequestros de pessoas, etc., um horror. Verdade é que o mundo em geral não cria juízo”, diz Murilo em carta de janeiro de 1975.

A contemporânea

Polêmica comentarista política, Adalgisa, a mulher que foi eleita por três vezes deputada pelo Rio de Janeiro, era das tintas fortes. Em sua literatura, ligou-se a Murilo Mendes, justamente pela intensidade dos raciocínios. E tudo, retirava dos dias. “Ela teve uma vida tão dura quanto a da personagem de ‘A imaginária’. Era uma mulher muito sensível e sentia tudo com muita intensidade. Conseguiu traduzir isso na poesia dela. Basta observar alguns títulos de seus livros: ‘Cantos de angústia’ e ‘A mulher ausente’. Ao mesmo tempo em que tem uma relação com o cosmo, com a vida, ela oscila entre otimismo e pessimismo profundos. Os casamentos a marcaram”, avalia Ramon Mello. “Sofrida, bela, indômita, A Imaginária (não o livro, mas a autora) teve uma vida solitária em meio a muita agitação, que sua hipersensibilidade não suportava”, acrescenta a biógrafa da escritora, Ana Arruda Callado, em prefácio da recente reedição.

Resgatar, agora, a amiga de Frida Kahlo, Diego Rivera, Flávio Cavalcanti, Orozco, Pedro Nava, Drummond, dentre outros nomes de peso, é jogar luzes sobre uma silenciosa influência contemporânea. “A literatura da Adalgisa é muito atual. Há pouquíssimo tempo, falávamos sobre a literatura auto-ficcional, de como as escritoras de hoje colocam suas vidas na narrativa. Adalgisa fez isso em 1959. E muito antes já era feito por outras escritoras. Esse livro mostra como a vida é um elemento fundamental para servir de motivação para transformar em linguagem a existência que temos, rápida, efêmera e, por vezes, tão dolorida quanto a dela”, pontua Mello. Segundo ele, além de “A imaginária”, best-seller assim que lançado, “este ano será publicado ‘Neblina’, que é o último romance. Curiosamente, nesse livro, a personagem fica sem voz, da forma como ela morreu. Além disso, vamos publicar os dois livros de contos e uma antologia, incluindo sua última obra poética.”


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