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Uma aposta no íntimo diálogo entre poesia e música

Um livro de um poeta estreante é sempre uma busca. E a obra nasceu de um diálogo entre música e literatura, explícito no título, que junta os vinis com o clássico Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu. A estrutura da obra é dividida como em um disco. No lado A, há uma procura por desvendar o enigma da palavra, o modo como ela se relaciona com o organismo do poema, como nos versos de “Dicionário ou Impressão”. É ali que Ramon nos apresenta sua preocupação mais formal, seu catálogo de intenções. No Lado B, o autor dá as caras de maneira mais desabrida, sem medo de se expor. Ramon se coloca como parte integrante do poema com toda a carga emocional que tal opção estilística pode carregar. Vemos dores de cotovelo, rompimentos e um certo cinismo com os caminhos do amor e da vida, como em “Faixa Arranhada” ou “Doida Canção”. Tudo repleto de referências ao mundo moderno, à cultura pop, à MPB, ao blues e ao computador – há um ótimo poema em linguagem de MSN. É um início e, como todo começo, deixa brechas, sinaliza melhoras. Mas, ao mesmo tempo, nos deixa querendo mais. Basta seguir a trilha sonora proposta por Ramon.

Entrevista – Ramon Mello

Fale um pouco de seu processo de criação.
Não consigo entender a arte sem diálogo. Assim é com a música e a poesia. Quando penso em nossos intelectuais, não me lembro dos acadêmicos ou imortais. Vibro ao saber que minha formação passa por músicos e compositores como Caetano Veloso, Renato Russo, Maria Bethânia, Lirinha, Marina, Arnaldo Antunes, Tom Zé. E junto tudo isso com a obra de Caio Fernando Abreu, que era um apaixonado por MPB. Vinis Mofados é resultado da conversa de uma vitrola 78 rotações com uma caneta Bic.

Então, o que influencia mais você?
A vida. Leio muito mais do que ouço música, mas não entendo maior influência de uma determinada área. O respeito que tenho quando ouço uma música do Chico Buarque é o mesmo ao assistir a uma peça do Zé Celso ou ao ler um livro da Cecília Meireles. A questão está na palavra, ela costura minha identidade. Escrevo muito a partir do amor intenso e da desilusão.

Por que a obsessão com o vinil?
Não é obsessão, mas relação afetiva. Gosto das capas grandes, do ritual de ligar a vitrola e virar o disco. Há muita diferença entre escutar um vinil e um MP4. Não tem juízo de valor, é diferente. Quando posso escolher, ouço música na vitrola.

Por Alexandre Duarte


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