Matérias

por Mariana Filgueiras

Parece difícil rimar contas do mês com

poesia, mas não para todo mundo: há quem viva de livros, sites, oficinas literárias e até eventos para empresas

A polêmica sobre o valor autorizado pelo Ministério da Cultura para captação de recursos para o blog de poesias da cantora Maria Bethânia — R$ 1,3 milhão — deu novo fôlego a um debate há muito esquecido: o valor da poesia. E, principalmente, o valor de quem a promove. Se o montante pedido para o projeto “O mundo precisa de poesia” é muito ou pouco, talvez nem os 72 heterônimos de Fernando Pessoa saibam dizer. Mas fato é que muita gente, com muito (muito) menos, consegue não somente divulgar, mas até viver de poesia. De autores laureados a vendedores de rua — aqueles do desconcertante “Você gosta de poesia?” — fomos atrás das histórias de quem encara os versos como ofício.

Nos anos 70, quando integrava o grupo de poetas Nuvem Cigana, Ricardo Gomes, o Chacal, chegou a trocar o próprio relógio de pulso por um jegue. O animal seria muito mais útil para quem pretendia viver de poesia num sítio no Sul Fluminense. Em outra ocasião, decidiu passar um tempo em Londres, mimeografou cem cópias do livro “Preço da passagem” e vendeu no Baixo Gávea. Hoje em dia, avalia, o poeta tem uma realidade muito mais favorável.

— Eu vivo de poesia há 40 anos e posso dizer: as coisas mudaram muito — atesta Chacal, aos 60 anos, enquanto prepara a primeira oficina (remunerada) do g r u p o d e p o e s i a C E P 20.000, fundado por ele há 21 anos. — Hoje, há oficinas, editais, rodas de leitura, eventos pagos. Ainda não é uma situação ideal, muitos grupos precisam de apoio. A poesia corrige o analfabetismo funcional, melhora o uso da língua, malha os neurônios. Hoje, o governo compra poesia e distribui nas escolas, coisa impensável anos atrás. Não sei se aumentou o número de leitores. Mas a circulação e a remuneração, com certeza.

O poeta Ramon Mello, aos 27 anos, é um exemplo de uma novíssima geração que já experimentou esta boa fase. Ramon deixou a pequena Araruama, na Região dos Lagos, aos 16 anos, para estudar teatro no Rio. Como sempre gostou de ler e escrever poesia, criou um blog em que entrevistava autores iniciantes. Ex-editor da Língua Geral, Eduardo Coelho visitou o site e depois perguntou se Ramon tinha algum livro pronto.

Nascia assim “Vinis mofados”, lançado em outubro de 2009, com excelente recepção.

O blog deu origem a um site mais estruturado, onde Ramon já entrevistou mais de 80 escritores. Uma coisa puxou outra: numa das entrevistas, conheceu o escritor Rodrigo de Souza Leão, morto há dois anos. A convite da família, tornou-se curador da obra dele. Em pouco tempo, passou a cuidar também da obra de Dinah Silveira da Queiroz e organiza a antologia de poemas de Adalgisa Nery. Novas poesias vêm em ideias anotadas no celular, o blog segue online e o próximo livro já está quase pronto.

Em janeiro, Ramon organizou, com Chacal e Heloisa Buarque de Hollanda, o festival de poesia “A palavra toda”, e passou a dar oficinas para jovens poetas. Numa delas, no Sesc Tijuca, “adotou” o menino Thiago Levy, de 16 anos, exvendedor de balas que se inscreveu por indicação da professora de Português do colégio público.

— Ele entrou todo marrentinho, e achei que estava ali por engano. Mas ele soltou:

“Ué, aprendi na escola que o Machado de Assis vendia bala, que nem eu”. Como quem diz: “Eu quero ser poeta, como faz?”, ou algo assim. Passei num sebo, catei alguns livros, fiz um “kit-poeta” e dei a ele. Acho que primeiro você vive para a poesia, depois aprende a viver de poesia — ensina Ramon, de malas prontas para Recife, onde ministraria as oficinas no Festival de Literatura Digital, seguindo depois para a Festa Literária de Porto Alegre.

Quando decidiu ser poeta, o niteroiense Paulo Betto Meirelles, de 23 anos, também deu seu jeito: largou a faculdade de Direito, para desespero dos pais, publicou o primeiro livro (“Tabuleiro de egos”) e levou para Niterói o sarau noturno Corujão da Poesia, evento semanal que já frequentava numa livraria do Leblon desde os 19 anos. Criado pelo poeta João Luiz de Souza há cinco anos, o Corujão funciona como uma vigília literária: toda terça-feira de madrugada, o microfone está aberto para leitura de poesias. Quem está sempre lá é o músico Jorge Ben Jor, padrinho afetivo do evento.

— Propus ao João fazer o Corujão em Niterói, ele topou, e hoje a curadoria virou meu trabalho. Meus pais foram ver uma vez, acho que estão se acostumando com a ideia de que poeta também pode ser uma profissão — conta Paulo, que ainda é compositor e músico da banda Pelicano Negro. Foi no Corujão da Poesia que João descobriu uma maneirade remunerar os poetas mais “entregues”:

— Eu vi que gente importante entrava na livraria por acaso, enquanto estávamos botando fogo no Corujão, e olhava interessada. Então eu pensei em apresentar os poetas a esses empresários, oferecendo pequenos saraus para empresas. Deu certo, com o lema “torne o seu evento mais inspirador e emocionante, inclua poesia na programação”. Hoje, instituições como Tribunal de Justiça do Rio, Senac, Firjan e empresas contratam poetas, sempre pagando cachês dignos — reforça João, que já “exporta” seus poetas para eventos no país todo.

Uma delas é a atriz e poeta Betina Kopp, 27 anos, que se formou em Educação Física mas nunca quis exercer a profissão. No Corujão, Betina recita poesias próprias, mas especializou-se nas alheias. Já gravou audiolivros e criou performances poéticas — numa delas, oferece um menu de poesias para degustação, em que declama o “poeta-prato” escolhido pelo espectador — e apresenta-se em festivais de poesia em todo Brasil.

— A poesia me trouxe muito mais do que o teatro. Já conheci 11 estados do Brasil,já me apresentei no Canecão e no presídio Bangu 1, mostrei poesias a gente que nunca tinha lido um livro e ainda recebo por isso — diz Betina, que para a foto posou com as colheres-adereço que usa em suas performances.

Após dez anos trabalhando com poesia na editora 7Letras e na revista eletrônica “Modo de Usar & Co” (que publica em parceria com os poetas Ricardo Domeneck, Fabiano Calixto e Angélica Freitas), a poeta Marília Garcia, de 32 anos, decidiu dar aulas de teoria da poesia em universidades. Às vésperas dos concursos públicos para professor de faculdades de Letras, pode ser encontrada submersa nos livros na biblioteca da PUC.

— Ao longo desses anos na editora, acompanhei de perto o aumento do interesse pela poesia. Isso se reflete em mais possibilidades para o poeta, como a criação de um edital especialmente para a criação literária, que já dura dois anos (ela se refere ao Programa Petrobras Cultural), e na expansão dos grupos de poesia. No Rio, há eventos de poesia todos os dias — comemora Marília, lembrando que no último em que esteve como convidada, no Sesc de Jacarepaguá, surpreendeu-se com a quantidade de jovens na plateia. Depois desta entrevista, Marília aproveitou o tema e publicou em sua revista-site um poema de Bénédicte Houart que começa com os seguintes versos: “Com os direitos de autor/ do meu primeiro livro de poesia/ comprei um m&m amarelo/ duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas/ com tanto alarido.”

— A relação tão forte com a poesia, no meu caso, vai além do trabalho com os versos, é um modo de ver o mundo, entender as coisas — diz Armando Freitas Filho é uma espécie de “Rilke coroa”, como ele mesmo define. Poeta há quase 50 anos, com 15 livros publicados e muitos prêmios para apoiá-los na estante, é a ele que recorrem jovens poetas ansiosos por orientação. Exatamente como fazia o jovem Franz Kappus com o poeta alemão Rainer Maria Rilke, no início do século passado — e que poeta iniciante, brasileiro ou alemão, não tem a correspondência trocada entreos dois, as famosas “Cartas a um jovem poeta”, no fundo da mochila?

A diferença é que Armando, aos 71 anos, faz tudo por email. Da ânsia dos jovens poetas, ele garimpa os textos mais bem escritos e indica para publicação. É assim que Armando vive de poesia: além de escrevêlas, trabalha atualmente como consultor das editoras. Foi ele quem descobriu as jovens Alice Sant’Anna, de 22 anos, e Laura Liuzi, de 24, que tiveram os primeiros livros (“Dobradura” e “Calcanhar”, respectivamente) muito bem recebidos no meio literário. A próxima aposta de Armando é Silvio Fraga Neto, de 24 anos. Seu primeiro livro vai inaugurar o selo de poesia da editora Bem-te-vi, no próximo mês de junho.

— Fico feliz em apresentar uma novíssima geração. É preciso conhecer poetas novos, senão ficamos com Fernando Pessoa a vida inteira — provoca Armando. — E o melhor é que o trabalho deles é completamentediferente. A Alice roça na poesia de Ana Cristina César; a Laura tem uma escrita mais subjetiva, com mais sombras; o Silvio tem o perfume da brilhantina de João Cabral — elogia o poeta, que teve como um Rilke particular ninguém menos do que Manuel Bandeira.

Quando foi convidado a dar a primeira palestra, no início dos anos 70, Armando percebeu que não estava fazendo um favor, mas um serviço: e que para isso precisava cobrar, oras, afinal não se vive de brisa. Juntou-se ao poeta e amigo Cacaso e juntos montaram uma tabela de preços que usariam a partir de então.

— Não deu muito certo, e eu só fui ser bem pago quando os poemas foram incluídos em livros didáticos — lembra Armando. — Ano passado, meu filho mais novo fez vestibular e trouxe a prova para casa: não é que estava lá um poema que escrevi aos 20 anos? Das três questões relacionadas a eles, acertei duas. E o mais curioso é que o gabarito das três era “C/D/A”, as iniciais de Carlos Drummond de Andrade. Concluí que Drummond é sempre a resposta certa. Da sua casa, na Ilha da Gigóia, o poeta Mano Melo, de 65 anos, concorda. Aos 16, ainda em Fortaleza, descobriu a poesia com Drummond e não sossegou mais. Veio morar no Rio, onde fez parte da “geração mimeógrafo” e de grupos de poesia renomados, como o Ver o Verso, com Claufe Rodrigues e Pedro Bial. Publicou oito livros e hoje conta mais de 40 anos pagando as contas com poesia. E com um pouco de sorte...

— Já passei muito aperto, os deuses da poesia te cobram muito, estão sempre testando sua determinação. Mas sempre que fico pendurado aparece um trabalho muito legal para fazer — conta. — Foi assim quando cheguei ao Rio, nos anos 70, e é assim até hoje. Foi vendendo livros de poesia mimeografados do Leme ao Leblon que juntei dinheiro para passar um tempo na Índia. Quando voltei, tive a ideia de fazer recitais nos auditórios das escolas particulares. Que professor de português recusaria? — recorda Mano, que teve entre os compradores de livro a escritora Clarice Lispector. Mano escreve todos os dias, das 15h às 2h. Acabou de concluir o novo livro, “Poemas do amor eterno”, que será lançado em maio. Mano também faz poesias sob encomenda, muitas para publicidade. Com forte sotaque cearense, gosta de repetir uma história que ouviu em Cuba, durante um evento literário para o qual foi convidado: um dos participantes contou que o filho fizera um pedido ao governo para trocar a profissão de enfermeiro pela de poeta, mas mantendo o salário.

— Ele me mostrou a respostado governo, aceitando a reivindicação, mas exigindo que o rapaz entregasse um livro por ano. Inacreditável, não? — espanta-se Melo, que vez por outra complementa a renda fazendo pontas em novelas.

Se o leitor reconhecer sua fisionomia em algum papel de porteiro, pode ter certeza: ali está um poeta despercebido num uniforme.

Assim como passam batidos os jovens do grupo Geração Delírio, que batem ponto todos os dias, depois do almoço, no “escritório”: as escadas da Biblioteca Nacional. De domingo a domingo, Paulo Alves Filho, Nelson Neto, Thiago Oliveira e Thiago Carvalho atravessam o caminho dos passantes para oferecer zines de poesia com a mal-recebida pergunta “Você gosta de poesia?”.

— De cada cem pessoas, umas 20 compram. Mas só uma dá atenção, para, conversa, lê, estimula... — conta Nelson Neto, que se sustenta há seis anos com os cerca de R$ 700 que tira por mês vendendo poesia por aí nas ruas.

Parceiro das calçadas de Nelson todos esses anos, Paulo foi alfabetizado pela mãe, em casa. Empregada doméstica, ela levava gibis dados pela patroa ao filho, que começou a devorar as revistinhas de “Dylan Dog” e a buscar novas leituras, até trombar com Augusto dos Anjos, o poeta preferido.

Hoje, é Paulo quem ajuda a mãe, com o dinheiro das vendas de sua obra.

— A gente se vira, sobrevive, mas não adianta nada se não houver leitores — analisa o rapaz.

 

 


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