Críticas e Resenhas Poemas Tirados de Notícias de Jornal

Pós-escrito para Poemas tirados de notícias de jornal, de Ramon Mello

“pense no tempo/ em nosso tempo/ tempo/ tempo/ tempo/ tempo” insiste o poeta na abertura do livro (Poema atravessado pelo manifesto sampler). Os versos resumem o primeiro princípio da poética de Ramon Mello. Ele propõe a adesão do poema ao que se passa no mundo, quer que o poeta invada o corpo do mundo e aceite seu caos. Pouco adiante, em outro registro, a ideia é retomada: “a poesia se esfrega nas coisas / percebe”

A partir desta conclamação, toda uma série de corolários se organiza. A própria ideia de basear os poemas em notícias de jornal é um deles. Uma aproximação do poeta e do jornalista é afirmada, pois “ambos devem preservar / usar muito bem a língua” (Códigos de ética). A própria formação do poeta/jornalista Ramon Mello guarda relação com isso. Uma tomada de posição anti-lírica atravessa o conjunto dos poemas. A originalidade - algo muito pessoal - cede lugar à autenticidade, isto é, ao compromisso com os fatos. Esta é reivindicada desde a epígrafe de Jim Jarmusch, citando Godard: “Não é de onde você tira as coisas que conta, mas onde você as põe.” Uma espécie de desromantização, já explorada pelas vanguardas do início do século XX, também está p resente. Ela é acompanhada da exigência da liquidação do ego do poeta, da valorização da criação coletiva e da referência à deglutição da Antropofagia oswaldiana: “propriedade coletiva/ eu sou vocês/ sou eu”.

Este primeiro princípio – “realista”- não apresenta nenhuma ingenuidade. Ramon não acredita que a verdade das coisas possa ser documentada, que o dito do jornalista seja mais real. Ele sabe muito bem que também “as notícias são vidas inventadas” (Em off) e que os “fatos são narrados como se fossem novelas” (Jornalismo policial).

A poesia de Ramon Mello é só aparentemente despretensiosa. Ela contém inclusive um jogo cifrado de rica intertextualidade, que revela a leitura cuidadosa da nossa melhor tradição. Uma passagem do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade, é reproduzida como uma das epígrafes. A lição oswaldiana é, em muitos aspectos, acolhida. Aparece no endosso das teses do manifesto de 1928, na adoção do estilo "telegráfico" de vários poemas, no recurso ao poema-piada e na própria estrutura formal de muitas passagens. Já o clássico Poema tirado de uma notícia de jornal, de Manuel Bandeira, inspira o título e o espírito do volume. Drummond também é uma importante referência. Não o Drummond maduro, mais meditativo, tão prestigiado hoje em dia, mas o modernista de Alguma poesia. Essa mão nervosa que tudo escreve, mencionada no poema de abertura, é a mesma presente em Poema do jornal, do livro de 1930. O contato com a poesia brasileira dos anos vinte e trinta foi muito mais decisivo para a elaboração deste livro do que o declarado amor do poeta pela música popular (Folha crítica), a qual geralmente é lírica e raramente é documental.

Em Bandeira, em Drummond, em Oswald de Andrade encontram-se os elementos constitutivos do segundo princípio da poética de Ramon Mello. Já apontei que o primeiro princípio da poesia do “jovem autor” (Folha Crítica) é o compromisso com a dicção documental, que justifica a proximidade com a notícia de jornal. Já o segundo princípio prende-se e não se prende ao primeiro. Certamente, a dimensão poética alcançada nestes versos não é prescrita por qualquer princípio documental. Ao mesmo tempo, ela não o contradiz. As vozes do poeta e do jornalista são muito diversas, mas não se chocam entre si. Nos seus melhores momentos, este livro não transcende o documental, mas o explora e aprofunda. Salvo em pouquíssimos casos, Ramon não perde o foco da notícia, mas, ao contrário, concentra nela a atenção.

O resultado desta operação, movida quase sempre pela ironia, é que estas cenas da vida cotidiana, vistas pelo poeta, nos surpreendem. Aspectos insuspeitos são revelados. Um detalhe destacado em um verso mobiliza de forma nova o olhar. Um traço desconcertante sublinhado poeticamente em alguma cena banal provoca a reação do leitor: de crítica, de repúdio, de pena ou de simpatia.

O segundo princípio da poética de Ramon Mello tem a ver com o fato de que toda boa poesia tem o poder de criar novos sentidos da realidade. Esta noção é referida em passagens como: “toda palavra / é / começo”, do poema de abertura, que destaca a dimensão inaugural da experiência poética. Comparece de outro modo em Inexistência, com a importante afirmação de que “em toda palavra / o risco”, que reconhece a imprevisibilidade de todo gesto de iniciar. Ou, ainda, está presente em Comprovação, ao declarar que o “belo debaixo das palavras” não depende de nada que exista além delas, ou seja, de algum deus.

A razão de os Poemas tirados de notícias de jornal serem tão bem sucedidos consiste em que neles se sustentam, sem nunca se anularem um ao outro, dois princípios ou duas éticas: a documental e a poética. Há entre eles, ao mesmo tempo, afinidade e crispação. Nisto reside a força da poesia de Ramon Mello.

 

Eduardo Jardim

Eduardo Jardim é escritor e professor do Departamento de Filosofia e do Departamento de Letras da PUC-Rio.


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