Críticas e Resenhas Vinis Mofados

Ler Vinis Mofados de Ramon Mello é acompanhar uma busca. E isso é sempre um momento de delicadeza. Foi assim que me senti ao ler os originais de Ramon. Amor declarado ao seu mestre Caio Fernando Abreu, citações necessárias a Caetano e Waly Salomão, o poeta sai à procura de alguma coisa que não pode e não deve ser guardada. Não há grande certeza se esta é a busca da poesia ou a busca mais pesada da própria palavra.

Entretanto, para se compreender o universo deste livro, é importante não perder de vista que a ansiedade o desejo forte de procura da palavra poética é movida à música. Aqui a palavra dita, a palavra sentida, a palavra silenciada, a palavra excessiva vem, de maneira muito explícita, articulada à palavra cantada. O que importa é a palavra e sua quase intangível definição.

Vinis Mofados, assim como os Morangos de Caio F., fala de passados recentes, ainda quente de referências musicais. O Vinil ainda úmido, palavras guardadas, que não conseguiram ser ditas, poesia-presa procurando transformar-se em poema e livro. O resultado material é um livro-álbum.

No LADO A, a tentativa quase obsessiva, de encontrar os sentidos concretos da palavra e suas práticas. São quase verbetes que cercam o dizer por todos os lados. A palavra como alimento em “Cesta básica”, palavra que foge em “Dicionário”, a palavra-lágrima em “Argueiro” e, não satisfeito, continua, insistente, buscando a palavra de bar, o poema-expresso, a palavra forjada numa overdose de blues. A tentativa prossegue, experimentando vários formatos de anúncios, cartazes, notícias, E prossegue ainda, revisitando mestres como Chacal, Cacaso, Viviane Mosé.

A primeira parte do livro fecha rendendo-se abertamente à música como em “Libido Tropicalista”, “Cartilha Remix” e “Phono – 00”, uma espécie de capitulação diante da evidência poética da palavra cantada, encantada. Chegamos perto da extensão de sentidos que a procura de Vinis Mofados empreende com determinação e uma certa aflição.

Já o LADO B, começa com uma aparente nova intenção. O primeiro poema, “Lado B”, pede um tempo para a música e, a partir deste ponto, a poesia de Ramon suspende um pouco a procura de sua dicção e mergulha sem hesitação num universo de “palavras empoeiradas”, lembranças, fotos, dores de cotovelo inesquecíveis.

Trata-se de uma poesia ágil, contemporânea, com marcas “internerds”, mas na qual o amor sonhado e perdido, o amor romântico au grand complet dá o tom e ganha a cena. Uma poesia de palavras musicadas em Vinil e experimentada em MP4.

Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 2009.

Heloisa Buarque de Hollanda

Ensaísta e pesquisadora, formada em Letras Clássicas pela PUC-RJ, com doutorado em Literatura Brasileira na UFRJ e pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Columbia, em Nova York, Heloisa Buarque de Hollanda publicou livros considerados essenciais na crítica literária brasileira. Entre eles, “26 poetas Hoje” (1976), “Macunaíma da Literatura ao Cinema” (1979) e “Esses poetas: uma antologia dos anos 90? (1998).


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