Matérias

por Sílvia Jardim

Sábado, primeiro de agosto de 2009, abri o jornal O Globo, separei o caderno Ela, o Prosa e Verso e o Segundo Caderno, como sempre. Vi primeiro a moda, para relaxar. Mas ao pegar o Prosa e Verso, antes de partir direto para a coluna do José Castello, fui tragada pela foto de primeira página: um rapaz sentado de pernas cruzadas no canto de um sofá de inusitadas grandes flores azuis. Chamada da foto: “Rodrigo de Souza Leão: morto mês passado aos 43 anos. Autor deixou romance inédito e ainda concorre ao Prêmio Portugal Telecom”. Li, então, de um fôlego só a matéria de Ramon Mello, poeta e jornalista, autor de Vinis Mofados (Língua Geral), esta poesia rápida que eu só viria a conhecer dois anos mais tarde:“encontros podem/ser mais do/que estratégias/acasos carências/dominicais” ("Mosaicos", p. 49).

Fiquei encantada com os trechos de um dos romances deixados por Souza Leão e que ocupavam os cantos da página dois do caderno: “Faz frio sempre em mim. Sou um cara sem amor. Sem carinho. Sem afeto. Acumulei desafetos nos empregos. Fui corretor como Kafka. Devedor como Balzac. Isso não me fez um bom escritor. Estou dando voltas. Círculos que me prendem em círculos. Vou andando em uma poesia visual. Vou cuspindo reticências. Escarrando sangue de vírgulas. Não uso vírgulas. As vírgulas parecem ouvidos. Elas só querem escutar algo: alguma palavra doce”.

Logo uma notícia na matéria me atraiu: Rodrigo de Souza Leão havia deixado o romance Todos os cachorros são azuis publicado pela 7Letras. Havia dois anos eu vinha trabalhando com literatura em aulas práticas para alunos de graduação da Faculdade de Psicologia da UFRJ quando estes passam pela disciplina de Psicopatologiano Instituto de Psiquiatria (IPUB) da mesma universidade. Nos dois primeiros semestres dessa experiência tinha trabalhado com A redoma de vidro, de Sylvia Plath. Depois Diário de Hospício e Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto. Naquele momento estava me preparando para trabalhar com O Alienista, de Machado de Assis com a próxima turma. Naquela manhã de sábado, a ideia “ano que vem vou tentar trabalhar com este autor” não mais me saiu da cabeça.

Na segunda-feira seguinte, levei para a reunião com as monitoras a matéria do Prosa e Verso. Mostrei-a a Rita Isadora Pessoa e Carolina Cibella. Rita disse: “Conheço o Ramon. Posso falar com ele”. “Fala, por favor”, foi a minha resposta.

Saí em campo para ler Todos os cachorros são azuis enquanto lia Machado de Assis. Não foi difícil de achar. Li Souza Leão nas férias, mas aquele título para mim já era uma poesia, uma frase poética fulgurante como o sofá da casa de Rodrigo de flores azuis, na foto da matéria assinada por Ramon.

Março de 2010 chegou e com ele a nova turma para as aulas práticas. As monitoras e eu havíamos lido Todos os cachorros... e decidido: “É isso aí! É muito bom. Vamos lá. O que será que os alunos vão achar?”.

Rita havia falado com Ramon que tinha se disposto a vir ao IPUB falar conosco, conversar sobre a obra do Rodrigo, seu encontro com ele e a curadoria do espólio artístico de Souza Leão. Ramon chegou um pouco atrasado para o nosso encontro, mas o bom foi que nossa conversa não parava e a aula tinha que começar. Ramon entrou na sala de aula, que nesse dia foi a nossa conversa diante dos alunos que tinham lidoTodos os cachorros são azuis, e nos encontrávamos naquele momento no anfiteatro Henrique Roxo, nome de um dos psiquiatras de quem Lima Barreto fala em Diário de Hospício. Ramon leu poemas de Rodrigo e prestou depoimentos tão lúcidos quanto encantados com a obra do escritor assumidamente esquizofrênico. Contou também que havia obtido ainda em vida de Rodrigo a autorização para adaptar Todos os cachorros... para o teatro pois Ramon também é teatrólogo e ator. Nessa mesma ocasião fez a mim o convite para participar do laboratório da peça. Apesar da minha inexperiência absoluta no assunto, aceitei. A possibilidade de levar esse texto para um palco me fisgou de primeira pelo desafio que imaginei seria. Além disso, se estava encantada com a escrita de Souza Leão não fiquei menos com o entusiasmo, a sensibilidade e a capacidade de trabalho de Ramon Mello.

A recepção dos alunos ao texto de Souza Leão era espetacular: ganhou de Sylvia Plath, Lima Barreto e Machado de Assis. Foi unânime a preferência pela contemporaneidade da estrutura literária, da musicalidade e da poesia em prosa de Rodrigo apoiada no bom e no melhor da tradição, Rimbaud e Baudelaire dentre outros.

Faz parte do exercício da aula prática que cada aluno escreva um comentário sobre o texto literário que está sendo trabalhado. Surgiram muitos escritos elogiosos, mas especialmente sensíveis ao incômodo que a literatura de Rodrigo causa. Incômodo que ao invés de afastar o leitor, o conduz a recônditos da alma humana que não são propriamente escondidos, mas podem ser encontrados em qualquer esquina. Além disso, ao trazer de modo poético para a luz do dia a experiência psiquiátrica da loucura, da medicação e da internação da doença mental, aproxima-nos desse campo sem negá-lo, sem dramatizá-lo, sem vitimização, com a coragem de artista que se desnuda não para se mostrar, mas para recriar a realidade. Costumo dizer nas aulas práticas que há um duplo trabalho na obra de Souza Leão: o do delírio (como disse Freud) e a do texto literário que compõe com esses fragmentos de suas vivências.

Quais foram os delírios e as alucinações de Rodrigo? Jamais o saberemos. Sempre poderemos sentir junto os delírios e as alucinações que criou para seus personagens intermináveis em narração poética em múltiplas vozes. Assim somos testemunhas de sua lucidez e de seu sofrimento. Como testemunhas, nos irmanamos. Como leitores, as alucinações, os delírios, a lucidez e a angústia são nossos, quando conseguimos lê-lo até o fim: “É verdade que as alucinações são coisas negativas. Mas bem que poderiam ser doutrinadas para ser positivas” (p. 47). Souza Leão faz aqui um trocadilho com a fenomenologia contemporânea que classifica os sintomas da psicose em positivos e negativos. No lastro de Machado de Assis, Lima Barreto e Plath, dentre muitos outros, mas esses especificamente, não deixa a ciência de fora, enfrenta-a em seus próprios termos.

Mas Rodrigo por Ramon ainda não tinha concluído todas as retribuições ao meu encantamento com ambos. O ano de 2011 chegou e com ele a prometida montagem da peça Todos os cachorros são azuis. Como prometido também chegou já via produção, o convite para participar do ensaio aberto da peça teatral, cuja direção estava entregue a Michel Bercovitch. Assistir esse jovem conjunto de atores e diretores em um ensaio aberto foi uma experiência comovente. Foram preciso cinco atores, cinco presenças, cinco vozes para compor o narrador de Todos os cachorros são azuis: as de Bruna Renha, Camila Rhodi, Gabriel Pardal, Natasha Corbelino e Ramon Mello. E um assistente de direção para o Michel, o Flávio Pardal. Uma experiência comovente por me levar do campo sagrado da minha prática como psiquiatra, aprendiz de professora de psicopatologia para o terreno sagrado de um palco de teatro. Comovente, porque o trabalho que tinham feito até ali já prenunciava o que viria/veríamos depois no palco do Teatro Maria Clara Machado, no Planetário da Gávea, de 10 de julho a 04 de setembro de 2011. As soluções de cenário e composição encontradas e exploradas para a narrativa de Souza Leão, assim como a entrega emocional da direção e dos atores, era contagiante.

Tinha levado comigo o melhor comentário escrito por uma aluna da turma do primeiro semestre de 2010, a Jessica da Silva David. Era o resumo mais sensível e mais bem escrito que conhecia do livro e queria compartilhá-lo com aquela outra turma, “Os Azuis”. Eu o li em voz alta no palco onde na ocasião o grupo, então, me assistia. Todos adoraram. Jessica foi aprovada como critica literária em público depois de se graduar em Psicologia. “Os Azuis” também decidiram com o consentimento dela publicar a resenha de Jessica no belo programa da peça. Fiquei muito orgulhosa. Mérito todo dela.

Assistir da plateia a peça toda pronta no segundo fim de semana de atuação foi mais uma novíssima experiência. Estava quase mais ansiosa que o grupo com as críticas. Duvidava do que eu mesma sentia: está bom demais; eles fizeram um grande trabalho; está lindo. Temos Rodrigo de Souza Leão no palco: força poética, som, movimento e alguma doçura.

Mas e daí? Sou psiquiatra, não entendo nada de teatro. Talvez seja um pouco poeta como todo o mundo e saiba só sentir. Mas aí veio a última frase, o encerramento do último ato e estávamos todos de pé batendo palmas e havia mágica no ar.

E como se não bastasse, veio a Bárbara Heliodora e disse tudo aquilo no Segundo Caderno de domingo, 24 de agosto de 2011.

Parabéns e obrigada, meu querido Ramones e demais "Azuis".

Sílvia Jardim. Psiquiatra/IPUB-UFRJ e professora.


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