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Jovens autores brasileiros falam de suas experiências literárias na escola

Publicado em 23/07/2011 | LUÍS HENRIQUE PELLANDA, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Aprender é uma mutilação. A frase é do escritor Paulo Mendes Campos (1922–1991), de sua crônica “Primeiras Leituras”. O autor se referia aos primórdios da sua alfabetização, mas também à literatura que, por intermédio da escola, inaugurou sua carreira de leitor. No texto, Mendes Campos conta que uma frase de Machado de Assis o aborreceu logo de cara: “Lobriguei luz por baixo da porta”. O verbo “lobrigar” lembrava lombriga, e lombriga lembrava vermífugo, coisa que o cronista, ainda menino, detestava. Assim, como são pessoais as relações de cada leitor com o que lê, serão sempre imprevisíveis as reações de cada um a um mesmo livro. A antipatia de Mendes Campos, no entanto, não o desviou nem da leitura, nem da escrita profissional. Seria essa uma experiência comum a outros escritores? O G Ideias perguntou a 18 jovens autores brasileiros quais foram suas excursões literárias escolares mais marcantes. As impressões variam; de certo, sabe-se apenas que, mesmo os que viveram situações negativas, não abandonaram a vida entre livros.

Ana Paula Maia, autora de Carvão Animal

Capitães de Areia, de Jorge Amado. Eu tinha dez anos e estava na quinta série. A leitura era obrigatória, pois cairia numa prova. Senti nojo, vergonha e medo do que li. Principalmente da cena do estupro de uma garotinha. Afinal, eu era uma garotinha também. Odiei Jorge Amado desde então.

André de Leones, autor de Como Desaparecer Completamente

Eu tinha um professor de língua portuguesa muito querido, Edmar Camilo Cotrim. Às vezes, eu ia vê-lo e aproveitava para pegar uns livros emprestados. Em uma dessas vezes, saí com Bestiário, de Julio Cortázar. Foi a primeira vez que tive uma relação epidérmica com um livro, uma identificação imediata e, por mais paradoxal que possa parecer, que prescinde de palavras.

Antonio Prata, autor de Meio Intelectual, Meio de Esquerda

Algo que me apresentou a diversos autores foi um concurso de poesia que havia na minha escola, Oswald de Andrade. Todo ano escolhíamos um poema e o interpretávamos. Não era uma coisa careta, de impostação de voz. Era uma brincadeira divertida, para cujo final toda a escola se reunia, com professores, pais e alunos. Assim descobri Drummond, Bandeira, Pessoa e tantos outros.

Antônio Xerxenesky, autor de A Página Assombrada por Fantasmas

Nunca vou esquecer de quando minha professora de português recomendou a leitura de A Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói. Eu estava na oitava série e a professora nos fez entender um livro que não é nada fácil para garotos dessa idade (e que, aparentemente, não interessaria a um adolescente).

Carlos Henrique Schroeder, autor de As Certezas e as Palavras

Eu cursava a sexta ou sétima série, e o professor indicou Robinson Crusoe, do Daniel Defoe, livro que na época me mostrou o poder da leitura: fiquei absolutamente febril com o enredo. Foi a primeira vez que fui seduzido pela leitura e pude sentir a respiração de um personagem. Depois, passei a ser o rato da biblioteca da escola.

Carlos Machado, autor de Balada de uma Retina Sul-americana

Eu me tornei escritor porque antes de tudo sou um leitor, e devo isso, em parte, a meus professores de literatura. A coisa pegou mesmo quando tivemos que ler Trapo, do Cristovão Tezza. Fazia parte das aulas da segunda série do Médio. Estudamos o livro e ainda vimos a peça.

Carola Saavedra, autora de Paisagem com Dromedário

Nunca tive essa sorte. Se dependesse das leituras indicadas na época do colégio, teria desistido de ser escritora antes mesmo de chegar ao vestibular.

Carol Bensimon, autora de Sinuca embaixo d’Água

O Último Mamífero do Martinelli, do Marcos Rey, na sétima série. No ano seguinte, também tive leituras marcantes, como O Apanhador no Campo de Centeio [J. D. Salinger] e Revolução dos Bichos [George Orwell], mas esse livro do Marcos Rey foi uma espécie de divisor de águas entre a literatura infantojuvenil e a adulta. Aquele clima do edifício abandonado, e o protagonista retraçando histórias a partir de objetos deixados para trás, me pegou de jeito.

Cezar Tridapalli, autor de Pequena Biografia de Desejos

Coisas que me levaram a fazer Letras no Ensino Médio: a Semana de Arte Moderna e vários escritores de 1922 em diante, tanto poetas quanto prosadores (muita gente é contra o livro didático, mas foi um livro didático bem normalzinho que me fez descobrir esses autores).

Eric Novello, autor de Neon Azul

Estava na escola técnica de biotecnologia e a professora indicou o Blecaute, do Marcelo Rubens Paiva, para dar uma quebrada na leitura de clássicos. Gosto de dizer que foi o livro que me deu vontade de ser escritor. Foi um sucesso total. Fim do mundo, solidão, sexo e gente pelada. Certeiro para a galerinha de 15 anos.

Luiz Felipe Leprevost, autor de Barras Antipânico e Barrinhas de Cereal

Foi uma antologia de poesia portuguesa chamada De Camões a Pessoa. Eu estava na sétima série. Certamente já vinha lidando, até de modo criativo, com questões emocionais, mas foi a leitura insistente dessa obra que, sem que eu soubesse, fundava em mim o gosto estético. Não se passa ileso por sonetos de Camões, pela rigorosa ironia de um Bocage, pela eloquência de um Camilo Pessanha.

Manoela Sawitzki, autora de Suíte Dama da Noite

Me marcou muito a primeira vez que vi uma foto e li o conto “Felicidade Clandestina”, da Clarice Lispector, no meu livro de literatura, acho que no primeiro ano do segundo grau. O livro da escola me levou aos livros da Clarice. O engraçado foi que, depois disso, passei a levar os livros dela para ler durante as aulas de literatura, numa espécie de provocação.

Marcelo Moutinho, autor de Somos Todos Iguais nesta Noite

Uma leitura que me marcou muito foi Antes Que o Sol Apareça, que minha professora de português recomendou à turma na sétima série. O romance, de Lucília Junqueira de Almeida Prado, trata da realidade dos boias-frias, e acho que me tocou tanto porque, na época, eu começava a me ligar nas questões político-sociais.

Marcio Renato dos Santos, autor de Minda-Au

Na década de 1980, uma professora de ciências me recomendou Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva. Pela primeira vez, li uma prosa que dizia respeito ao meu mundo. Passei, inclusive, a entender com mais clareza as obras de Machado de Assis e Lima Barreto, leituras obrigatórias, mas que, a exemplo da do Paiva, reinventaram os seus próprios contextos.

Michel Laub, autor de Diário da Queda

Não lembro de nada indicado por professores, pelo contrário. A maioria se limitava ao currículo escolar, que na época me interessava pouco.

Ramon Mello, autor de Vinis Mofados

Em Araruama (RJ), tive uma professora de português chamada Norma que, além de ensinar, incentivava a leitura com prazer. Ela modificou minha relação com a leitura ao me apresentar a poesia do Manuel Bandeira. Também teve uma professora de alfabetização, Tia Naia, que mudou minha vida ao me presentear com Maria Vai com as Outras, de Sylvia Orthof.

Santiago Nazarian, autor de Pornofantasma

Enquanto os professores batiam na tecla de Machado de Assis como “o maior autor brasileiro”, eu descobria Oscar Wilde e Caio Fernando Abreu pelas indicações de uma namorada. Muitas das recomendações de leitura na escola são precoces para a fase em que o adolescente vive, não geram identificação e paixão pela leitura. De todo modo, Uma Noite na Taverna, do Álvares de Azevedo, e O Centauro no Jardim, do Moacyr Scliar, foram leituras escolares prazerosas e perturbadoras.

Simone Campos, autora de Owned — Um Novo Jogador

Tive uma professora na quarta série, a tia Solange, que fez cada aluno comprar um livro diferente no começo do ano. Tudo paradidático: coleção Veredas, Vagalume etc. Depois que lemos e fizemos um trabalho sobre o nosso livro, ela mandou cada aluno trocar seu livro com o de outro, até que cada um leu cinco livros. Um deles me marcou muito: O Planeta do Amor Eterno, de Maria de Regino, que era a história de A Bela e a Fera recontada em forma de ficção científica, meio Solaris.


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