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O ESTADO DE S. PAULO - 13 Novembro 2014

 Veja a repercussão da morte do poeta no meio literário e editorial

O poeta Manoel de Barros, morto nesta quinta-feira, dia 13, aos 97 anos, foi lembrado com carinho por amigos, escritores e admiradores. Confira:

 Mia Couto, escritor moçambicano

"Mais do que um poeta, foi um mestre na aprendizagem de um outro olhar, um olhar mais próximo das coisas essenciais, essas que só entendemos por via da infância. Por meio da poesia ele re-arrumou o mundo e ensinou-nos o valor das coisas que não parecem ter préstimo. Esse préstimo pode ser o simples facto de se ser pequeno, desvalido e instigador de beleza. A sua palavra foi uma espécie de microscópio para vermos o que nos ensinaram a desconsiderar. Por tudo isso, a sua vida e o seu nome não podem ser ditos no pretérito."

 

Ignácio de Loyola Brandão, escritor

"Quantos sabem o que é o Idioleto Manoelês Archaico?

É o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e as moscas.

Você conhece palavra desutilidade? E criançamento?

O que Manoel quer dizer quando fala: 'Prefiro as máquinas que servem para não funcionar'?

Ou: 'Perder o nada é um empobrecimento'?

Encantos, foi o que Manoel de Barros fez a vida inteira.

Na sua simplicidade, singeleza, despojamento há mais temas do que tratados de filosofia.

Quantos volumes podemos escrever sobre esta afirmação: Tudo que não invento é falso.

E esta, então: As palavras me escondem sem cuidado.

Ah, Manoel, sem você vai ficar tudo tão rasteiro. Quem escreverá sobre ignoranças ou sobre o Nada com o teu jeito?"

 

Armando Freitas Filho, poeta

"Acompanhei a obra dele a partir dos anos 1960 até 1980. De Face imóvel (1942) ao Compêndio para uso dos pássaros de 1960 a mudança foi grande. Basta ver os títulos dos livros citados. A meu ver sua poesia sofreu essa metamorfose quando assimilou uma escrita "roseana", como se ele escrevesse a partir dos rascunhos de Guimarães Rosa. O resultado foi bom e até surpreendente em Gramática expositiva do chão (1966) e Arranjos para assobio (1980). Com o andar do tempo o que foi surpresa ficou maquinal, maneirismo de frases, mais ou menos felizes."

 

Ondjaki, escritor angolano

"Não há palavras de dizer esse nosso dikota (mais-velho) Manoel. Uma vez chamaram-lhe Manoel do Barro. Manoel-em-Barros. Hoje eu queria sonhar um post-scriptum para ele: era quase assim: 'talvez ao poeta faça bem / desabrochar-se / tanto quanto ele / se nos acendeu nos vagalumes'."

Wesley Peres, escritor e autor da tese Formações do Inconsciente e Formações Poética Manoelinas: Uma Leitura Psicanalítica Acerca da Subjetividade e da Alteridade na Obra de Manoel de Barros (Universidade Federal de Goiás)

"Manoel poetizou a natureza arrancando-a de si, usou a linguagem para executar tal separação. Além disso, deu primazia ao sensório sobre a razão, utilizando a razão e o sensório para afirmar tal primazia. Mas, eis, que sua obra deu um salto, ao escrever versos como: "o perfume vermelho me pensa". Aí sua poética rompeu os limites entre o sensorial e o conceitual, entre percepção e pensamento, de modo a fazer a matéria pensar e o pensamento encarnar-se em coisas do mundo. Um projeto e tanto, que só não digo irrealizável porque se realizou".

 

Socorro Acioli, escritora

"O Manoel de Barros faz parte da minha santíssima trindade dos poetas brasileiros, junto com Adélia Prado e João Cabral. Eu acho que poeta é ou não é. E ele era. Uma poesia sem pose, extensão da vida que ele vivia."

 

Pascoal Soto, diretor editorial da Leya

"Querido Manoel: Tentei me preparar para esse momento. Achei que, chegada a hora, estaria suficientemente forte para suportar a dor de sua ausência... Enganei-me... Descanse em paz, Manoel. Abraço a Bernardo-passarinho. Agora, tem aqui um deserto em nós."

 

Marcelo Ferroni, editor da Alfaguara

"Manoel de Barros conseguiu desenvolver uma linguagem própria, marcante e emocionante. E ele trabalhava as palavras de uma forma muito delicada. Era muito querido por todos aqui na editora. Vamos tentar adiantar para o primeiro semestre a reedição da obra dele, prevista, antes, para o segundo semestre." (A Alfaguara anunciou no dia 31 de outubro que passaria a publicar toda a obra do autor, que antes estava no catálogo da Leya)

 

Ramon Nunes Mello, poeta

"A poesia de Manoel de Barros me ensinou que "há várias maneiras de dizer nada”. Aprendi com seus livros encantatórios, como Arranjos para Assobio e Livro Sobre Nada, a verdadeira “virtude de ser inútil”. A poesia de Manoel de Barros é tão forte que dialoga com outras linguagens como a dança, a música, o teatro e as artes visuais. Basta assistir ao espetáculo Tudo que não invento é falso, de Paula Maracajá, ou ainda a "desbiografia oficial” pintada pelo cineasta Pedro Cezar, Só Dez Por Cento é Mentira, para entender que a poesia de Manoel de Barros é a infância da língua portuguesa."

 

Mário Alex Rosa, poeta

"O meu primeiro contato com a poesia de Manoel de Barros foi pela belíssima capa do livro Concerto a céu aberto para solos de aves, editado pela Civilização Brasileira, em 1991. Fiquei deslumbrado com aquele “objeto” estranho composto por um caracol, um alicate e dois olhinhos. Essa composição parece formar um bicho que ao mesmo tempo traz uma delicadeza tem uma tensão naquele olhinho preso no alicate. Portanto foi pela imagem de uma capa que descobri e passei a ler seus poemas. Aliás, prefiro mais esta capa do que da nova edição. Gosto da poesia de Manoel de Barros não apenas pela linguagem construída, mas sobretudo pelas imagens que ela (a linguagem) pode suscitar. Todas as perdas são doídas e irreparáveis, mas de um poeta verdadeiramente poeta, parece doer mais na gente, pelo menos em mim."

 

Victor Heringer, poeta

"Manoel de Barros é um poeta perigoso. Como Guimarães Rosa, Beckett ou João Cabral, seu estilo é daqueles que encanta o leitor e pode levar um escritor ao desespero. O leitor em mim, sobretudo quando está de bom humor (Manoel é melhor lido em dias de bom humor), fica maravilhado com sua capacidade de moldar as palavras como se elas ainda fossem barro mole, como se ele ainda fosse criança! E com as suas ideias pequenas, suas ingenuidades essenciais, sua filosofia miúda. Como gosto de gente sem pompa, só com circunstâncias... O leitor em mim gosta do Manoel de Barros; o Manoel não tem medo do ridículo, porque só o ridículo é matéria de poesia. Aí vou escrever, me ponho a escrever. Estou escrevendo e de repente brota uma dália manoelina no meu texto, um girassol em forma de horizonte, uma lista de instruções para a engenharia de nuvens. De repente meu verbo começa a pegar delírio (e olha que eu dei a ele todas as vacinas). Sobrevém o temido momento: impossibilitado de copiar o Manoel de Barros, eu fico imprestável para a escrita, sentado ali, em estado de árvore. Bendito seja."

 

Fabricio Carpinejar, poeta

"Manoel de Barros era o último sobrevivente de uma tradição literária de trabalhar o folclore, inventariar a linguagem e propor um pacto de ingenuidade com o leitor. Era um tarado pelas palavras. Buscava os primórdios, o intuitivo. Os personagens comuns e deliciosamente simples. Ele professava douta ignorância. Sua poesia é um menino aprendendo a falar e um velho aprendendo a esquecer."


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