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Ode poética a Maria Bethânia proibida pelo regime militar ganha nova edição, 43 anos depois, com dois shows-recitais da cantora

Luiz Felipe Reis [O Globo – Segundo Caderno – 4 de outubro de 2011]

 Às duas horas da manhã, Maria Bethânia foi surpreendida com 20 homens à porta de casa. Era dezembro de 1968. O AI-5 fora decretado havia poucos dias, e, sem qualquer explicação, a cantora foi levada a um quartel da Zona Norte do Rio. O interrogatório atravessou a madrugada.

Em São Paulo, Caetano Veloso e Gilberto Gil já haviam sido presos. Os militares queriam informações sobre Geraldo Vandré. Mas não só. Insistiam em perguntas sobre um livro que o poeta Reynaldo Jardim havia escrito em homenagem à cantora. O título. Maria Bethânia Guerreira Guerrilha, havia feito soar o alerta vermelho nos órgãos de repressão sobre a cantora que, três anos antes, causou impacto no show Opinião, em que entoava, substituindo Nara Leão, uma inflamada versão de Carcará, de João do Vale e José Candido.

“Foi um período terrível… Fui presa no Rio de Janeiro, dentro da minha casa (…) Queriam saber por que eu causei esse livro, por que esses cara escreveu esse livro para mim… É um poema lindo do Reynaldo, uma coisa de amor que ele fez (…) Eles mostraram o depoimento dele e batia com o que dizia: “Eu sou uma mulher de palco, ele assistiu ao meu espetáculo. É um intelectual, um poeta, e queria escrever um poema, que deu num lindo livro que foi publicado e logo proibido”, lembrou a cantora numa entrevista a Marília Gabriela, no programa “Cara a Cara”, em 1992.

Impactado pela estreia de Bethânia em solo carioca, ao lado de Zé Keti e João do Vale, em 1965, Jardim passou três anos burilando um pequeno poema que, aos poucos, transformou-se no tal livro. Lançado no dia 28 de novembro de 1968, com mil cópias, a obra circularia por apenas 15 dias. Considerada subversiva e pornográfica, Maria Bethânia Guerreira Guerrilha foi retirada das livrarias e seus exemplares foram queimados – inclusive o que foi entregue à cantora. Agora, oito meses após a morte do autor e 43 anos depois de sua primeira e única impressão, a obra será publicada pela editora Móbile. O lançamento será acompanhado de duas edições especiais do show-recital Bethânia e as palavras, que a cantora realiza nos dias 18 e 19 no teatro SESC Ginástico.

Responsáveis pelo resgate histórico-literário, o produtor Marcio Debellian e o poeta e pesquisador Ramon Mello encaram o projeto como um triplo acerto de contas com a ditadura: retirar um livro-poema do calabouço, resgatar um poeta do ostracismo e homenagear uma artista que iluminou o cenário musical brasileiro mesmo tendo surgido em meio ao mais tenebroso e obscuro momento político da História do país.

- O livro nunca chegou de fato ao público, pouquíssimas cópias restaram – conta Debellian. – A republicação é uma homenagem aos dois. Para quem é de uma geração que tem formação musical, poética e afetiva que passa pelo encanto de ouvir Maria Bethânia declamar poetas como Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moares, parecia incoerente e injusto que uma ode poética em sua homenagem permanecesse sob o cálice da ditadura.

Ramon Mello define a republicação como “um ato político”.

- O livro é uma declaração de amor em versos num crítico momento da política brasileira. É a palavra como arma – diz. – Acho que muitos textos, canções e até filmes já poderiam ter sido feitos sob a influência desse trabalho do Reynaldo, que era um poeta incrível.

Admirado por Ferreira Gullar, Hélio Pellegrino e Ana Arruda Callado – todos com depoimentos na contracapa – Reynaldo começou a carreira no “Correio da Manhã”, criou o Suplemento Dominical do “Jornal do Brasil, dirigiu o lendário e combativo jornal “O Sol” e esteve no centro da poética disputa de poder e influência entre os concretistas paulistas e os neoconcretistas cariocas – seara em que militava.

- Muitos poetas e escritores escreveram sobre Maria Bethânia, Ferreira Gullar, Vinicius de Moraes, Caio Fernando Abreu, Fauzi Arap, Clarice Lispector… Os textos são lindos, sem dúvida. No entanto, o mais belo retrato foi pintado com as palavras do Reynaldo – diz Ramon.

Depois de vasculhar – sem sucesso – o acervo de sebos espalhados pelo país, Debellian e Ramon resolveram, no começo do ano, entrar em contato com a família do escritor e comprar os direitos do livro.

Trabalhada desde abril, a nova edição segue à risca o projeto gráfico original idealizado pelo poeta. A capa estampada em suas grandes e pouco convencionais medidas (36 cm de altura por 18 cm) será mantida, assim como a tipologia que se vale de uma variada gama de fontes e tamanhos.

- Não fazia sentido pensar em mudanças em relação à primeira edição – diz Debellian. – Ele dizia que existia uma ditadura de tipologias na época, então decidiu usar todas as que tinham à disposição naquele momento.

Guerreira Guerrilha é um poema polifônico para ser interpretado a três vozes – a mudança tipográfica assinala cada alteração. O autor, que se referia à obra como uma “uma ode heróica”, alertava que o poema era “muito mais para ser ouvido do que para ser lido”.

- Em alguns momentos, o texto atinge um frenesi tamanho que remete a um estado de guerra, um tiroteio sobre nossas cabeças – diz Debellian.

E o professor e pesquisador Júlio Diniz, do Departamento de Letras da PUC – Rio, que assina o prefácio da nova edição, dá seu parecer:

- O poema é um soco, um gesto potente e rebelião contra o silêncio imposto e o controle da criatividade e invenção artísticas. É um poema polifônico, amplo, plural, compartilhado, democrático, unindo vozes, gestos e perfis distintos.

Inovadora e revolucionária

Considerada uma peça inovadora e revolucionária por sua estrutura atípica, Maria Bethânia Guerreira Guerrilha constrói, em 43 páginas de poesia (no original; a segunda edição atual, com prefácio e outros textos, tem 93 páginas) versos que enfatizam os opostos que formam a cantora: combativa e amorosa, rebelde e delicada…

“A unidade do poema está na sua inspiração: Bethânia, um ser múltiplo. Completo e inacabado ao mesmo tempo”, disse Reynaldo Jardim, numa entrevista ao “Jornal do Brasil” na época do lançamento.

Para Ramon Mello, autor de Vinis Mofados, “o livro captura o leitor pela força do verbo”

- Reynaldo mistura diferentes vozes para mostrar a força e o talento de uma cantora que aos 18 anos mostrou a que veio. Cantar a sua língua, suas raízes.

E o produtor Marcio Debellian encerra a batalha reafirmando e redimensionando a porção guerreira da musa inspiradora do poeta Reynaldo Jardim:

- É inegável que Bethânia tem a alma de guerreira. É filha de Iansã, demonstra isso em sua postura artística. Mas tem algo da guerreira que se adoçou ao longo do tempo. Ela continua dizendo coisas fortes e revolucionárias, só que revestidas de beleza, e não com um “fuzil na voz” como o contexto da época queria impor.


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