Críticas e Resenhas 

A sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade

José Castello [Agosto de 2016]
 

A sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade

 

Começo, nesse mês de agosto, a quinta edição de meu “Estúdio do Conto”, oficina regular de narrativas breves que dirijo na Estação das Letras, Rio de Janeiro, sob a inspiração firme de Suzana Vargas. Não atuo como professor — nada tenho, de fato, a ensinar. Ao contrário: meu projeto não é transmitir regras, padrões, truques, princípios. Mas ajudar os alunos — a cada um deles — a encontrar sua própria voz. Aquilo que costumo chamar, de uma maneira simples, de “voz interior”.

Livros sempre vêm em meu socorro. Lendo Há um mar no fundo de cada sonho, de Ramon Nunes Mello (Verso Brasil), encontro, na página 51, um pequeno — e iluminado — poema que ajuda a ilustrar meu projeto. O poema se chama A mudança. Escreve Ramon, em versos curtos, mas certeiros: “está/ na força de prevalecer/ no ser”. E, logo abaixo, conclui: “ancorar a presença no corpo”. E é tudo: o poeta não precisa dizer mais nada. Mudar, portanto, não é transformar-se em outra coisa, mas chegar àquilo que já se é. “Cair em si”, como costumo dizer. É tudo o que tento (não sei se consigo) ajudar meus alunos (mas a palavra não é esta) a fazer.

A sociedade contemporânea se ergue sobre o culto da novidade. Tudo deve ser inédito, surpreendente, sem precedentes. Tudo deve sempre se mexer e se modificar. A literatura ensina, no entanto, que o mais difícil não é transformar-se nisso ou naquilo — escrever à maneira de fulano, ou de beltrano —, mas, em vez disso, perseverar (Ramon diz: “ancorar”) naquilo que já se é. Chegar a si, livrando-se de todos os adornos, automatismos, máscaras, disfarces que o mundo de hoje nos obriga a vestir para sobreviver. “Prevalecer no ser” — para usar, mais uma vez, as palavras de Ramon. Isto é: conservar-se, persistir, insistir, de maneira intransigente e firme, naquilo que se é. Só assim a voz interior pode enfim nascer.

Não é nada fácil essa “queda em si”. O mundo contemporâneo nos diz, sempre, que devemos vestir a última grife, adotar o último estilo, experimentar a última sensação. Em outras palavras: que devemos pular para fora de nós mesmos — o que não deixa de configurar uma forma dócil, e voluntária, de traição. A palavra chave de nosso mundo é “adrenalina” — o hormônio que eleva a pressão sanguínea e estimula as respostas fisiológicas rápidas. Saltar para fora de si — exibir-se numa grande performance — é o que todos desejam. É o que nosso mundo miserável exige de nós. Ali, queimando-se no fogo da adrenalina, muitos acreditam se realizar.

Cada um sustenta as próprias palavras. E é esse peso, da palavra própria, que confere singularidade à escrita.

Na contramão, resistindo como podem, com leveza e lentidão, caminham a literatura e a arte. A luta exige não apenas persistência, mas vigor. Repito Ramon: “está/ na força de prevalecer/

no ser”. Em vez de atirar-se para fora mergulhando em experiências da moda, em vez de embriagar-se com os apelos do mercado ou das “aventuras radicais”, persistir em si, “ancorar” (Ramon) no próprio corpo e dali não arrastar pé. É o que tento fazer com meus alunos — mas a palavra, em definitivo, não é essa — alunos —, e admito que não sei que palavra usar. Talvez deva dizer apenas: “aqueles que me acompanham”. Companheiros, portanto. Parceiros.

O que tentamos fazer juntos? Ler e reler e reler, discutir e discutir e discutir, sentir ao esgotamento os contos que cada um dos participantes está produzindo. Exercitar, portanto, a experiência da parceria. É um trabalho coletivo — uma espécie de escrita grupal, talvez, embora a última decisão, é claro, fique sempre para o autor. Sim: porque investimos firme na ideia de autoria, outra noção, aliás, desprestigiada pelos contemporâneos, que preferem ver os escritores como “produtores de texto” — coelhinhos que reproduzem obras em série. No estúdio, cada um é, ao contrário, dono de sua voz. Com a ajuda de todos, devem tentar encontrá-la. Cada um sustenta as próprias palavras. E é esse peso, da palavra própria, que confere singularidade à escrita.

Logo: não trabalho com apostilas, manuais, compêndios, livros de referência. Não tenho princípios, ou métodos didáticos. Não existem exercícios, provas, correções, notas, aferições. Nada que se pareça com uma escola. Nada mesmo. Talvez uma antiescola. A ideia não é chegar ao “certo”, mas ao que Ramon chama de “presença do corpo”. Cada um luta para voltar a si — como de um desmaio. Cada um se empenha, com a ajuda de todos, em perseguir não a moda, ou a correção, ou “o que vende”, mas suas próprias palavras. Nenhum valor às listas de mais vendidos, às premiações, às consagrações: a escrita é uma experiência absolutamente individual, e como tal deve ser experimentada. Como um segredo inegociável.

É muito belo ouvir a divergência de opiniões, de leituras, de interpretações. É muito estimulante saber que, enquanto lemos e discutimos, apostamos em um valor — hoje infelizmente tão ameaçado: o pluralismo. Quer dizer: a liberdade para cada um ser o que é, e nada mais. Retrocedendo à página 24 do livro de Ramon, esbarro em outro poema, Fé, que me ajuda a pensar. “Todos os livros têm caráter/ de urgência”, ele escreve. “O testemunho de um/ sujeito/ diante do abismo”. É do abismo do si que se trata. Esse “mundo sem fundo” que, inocentes, carregamos dentro de nós. Por isso, todo livro é um livro interminável. O encontro com a própria voz é uma experiência de risco, que se assemelha a lançar-se de um despenhadeiro. Só que você não cai para fora, cai para dentro. Cai em si — volto a dizer.

Nem todos os participantes de meu estúdio conseguem se entregar. Alguns resistem — outros partem antes do tempo. Alguma coisa, mesmo assim, deixam para trás. Está no poema seguinte de Ramon, batizado Viagem: — “deixou o/ coração/ desnudado sobre/ a cama/ partiu”. Alguma coisa sempre se revela. Alguma coisa fica — e fica para todos. Eis a vantagem da experiência coletiva: cada um colhe o que pode, do jeito que pode, no momento em que pode. As descobertas são lentas e imprevisíveis. Daí o nome: estúdio. “Espaço onde os artistas projetam ou realizam seus trabalhos”, o dicionário define. Não basta fazer: é preciso se arriscar a fazer (é preciso projetar). O dicionário oferece ainda bons sinônimos para o verbo “projetar”: “atirar-se à distância”, “arremessar-se”, “lançar-se”. Eis o abismo do qual não se

pode fugir. Desfiladeiro interior, onde as verdadeiras palavras nos esperam. São essas palavras que, juntos, enfrentamos.

José Castello é escritor e jornalista. Autor do romance “Ribamar”, entre outros livros. Vive em Curitiba (PR).

Críticas e Resenhas 

Poeta participa da última mesa da Flip, "O palco e a página", neste sábado 

MARIANA FILGUEIRAS
O Globo
 

Após receber exame positivo para HIV, Ramon Mello escreveu seu terceiro livro, que ressignifica a doença e celebra a natureza - Barbara Lopes / Agência O Globo

PARATY - Em meados do ano passado, Ramon Mello estava no Xingu, visitando um amigo que faz pesquisas etnográficas na aldeia Afukuri. Certo dia, meditando num canto da mata, viu o céu ensolarado ser cortado por um arco-íris. Comentou com um índio que estava perto: “Vai cair um temporal”. O índio respondeu a Ramon, em português: “Aqui chove, não ‘cai temporal’. Estamos em harmonia com a natureza”.

Prestar atenção nas palavras, deixar de perceber a natureza como um problema e tirar lições do silêncio são alguns dos temas de “Há um mar no fundo de cada sonho” (Verso Editora), terceiro livro do poeta fluminense, que participa hoje, às 21h30m, da mesa "O palco e a página", com a escritora inglesa Kate Tempest.

Autor de “Vinis Mofados” (Língua Geral, 2009) e “Poemas tirados de notícias de jornal” (Móbile Editorial, 2011), Ramon diz que, muito por causa daquela chuva lá do Xingu, este é seu livro mais solar (“há um sol dentro de cada palavra/ todos os dias abro janelas para iluminar a língua”, diz um dos poemas):

— É o livro que tem mais amadurecimento, certamente, e também mais beleza. São poemas com mais percepção do presente, de maior contemplação da natureza. Começou a ser escrito assim que eu recebi o diagnóstico — comenta Ramon, que no último dia 1º de dezembro, Dia Internacional da Luta Contra a Aids, fez um texto assumindo sua condição de soropositivo que viralizou na internet. — Durante os três anos de escrita, passei um tempo mais recluso, entendendo o que representa ser soropositivo hoje em dia, que não é um prenúncio de morte, como já foi um dia. Um tempo em que passei por uma expansão maior da consciência, de maior comunhão com a natureza, na qual o uso da ayhuasca também me ajudou bastante, planta que ensina a valorizar o ouro das palavras e a ancorar a presença no corpo.

O resultado são poemas mais enxutos, de inegável preocupação com a forma e múltiplas referências literárias. Há um diálogo com William Burroughs, (“A linguagem/ o verdeiro vírus”, diz o verso que o encerra), um poema dedicado à Laerte (“E deus foi na festa vestido de mulher/lindo como uma bacante”, diz o verso que o inicia), e um onde se ouve, ao longe, a voz de Leminski (“ele/acredita estar dentro/mas/na verdade está fora”).

— Há várias vozes circundando a minha agora, como a de Alberto Pucheu, a de Leonardo Fróes, que também está nesta Flip. E Ana Cristina Cesar também, a homenageada. Li muito Ana Cristina, acho que tenho em comum com ela essa encenação do biográfico — responde Ramon, que incluiu no livro não um prefácio, mas um posfácio. — Chamei o Eduardo Coelho (professor de Letras da UFRJ e crítico literário) para escrever um ensaio ao final. O texto dele me iluminou coisas que eu não tinha percebido, como a relação com o tempo, como muda nos três livros, ou com a música.

A abordagem do HIV é apenas um dos temas do livro, assim como são a natureza ou o amor. Ramon faz questão de esclarecer: não vai levar o HIV para sua literatura como bandeira.

— A questão é poder ressignificar o HIV, e o sujeito continua sendo eu, não ele. Ele continua sendo um outro, que vai ter que conviver bem comigo. Há um texto muito interessante que li de um pesquisador da UFBA chamado “Literatura pós-coquetel”, abordando justamente como muitos autores levaram o HIV para a literatura. A literatura, principalmente a poesia, é o lugar da liberdade, inclusive do HIV. No entanto, eu não vou fazer do vírus uma bandeira. Este livro é, antes de tudo, uma afirmação de um lugar mais íntimo com a palavra.

LINK DA MATÉRIA: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/ramon-mello-ressignifica-vida-em-novo-livro-19632427#ixzz4EFG006bw

Críticas e Resenhas 

'Há Um Mar no Fundo de Cada Sonho' é a terceira publicação do escritor 

Mariana Ianelli
Especial para o jornal Estadão

Terceiro livro de poesia de Ramon Nunes Mello, Há Um Mar no Fundo de Cada Sonho anuncia já no título um canto aberto. Reunindo 61 poemas, muitos deles como breves anotações de uma poética, o volume conta ainda com um posfácio do professor Eduardo Coelho, que expõe, retrospectivamente, os caminhos de um jovem autor desde sua estreia aos 25 anos, em 2009, com Vinis Mofados.

A escolha da poeta portuguesa Sophia de Mello Andresen para a epígrafe de abertura ilumina uma nova relação de Ramon com a palavra, agora mais íntima e atenta a elementos que buscam uma unidade entre ser e linguagem: a claridade, a frugalidade, uma vida simples e lúcida em estado de oração. Agora, a escolha das palavras parece essencialmente norteada pela convivência do poeta com a natureza e as coisas, por uma integração dos seus poemas na ordem do mundo, princípio que não por acaso se assemelha àquele da arte poética de Sophia.

A finitude enquanto motivo literário e rituais religiosos ligados ao corpo e à natureza, ao longo do livro, têm uma dimensão de sentido ampliada pelos aspectos biográficos que o posfácio fornece ao leitor. A busca do silêncio através da meditação e a ressignificação das palavras a partir da experiência com a ayahuasca, por exemplo, são algumas práticas transformadoras da percepção que, de uns anos para cá, têm influenciado na vida e no trabalho poético do autor. Pode-se assim ampliar o sentido de poemas que falam do “vinho das visões prodigiosas”, de um “mergulho / na fonte primordial”, de “um sol / dentro de / cada palavra”.

A flecha de Oxóssi, o anjo de William Blake, o fogo sagrado do corpo feito serpente, todos eles signos de espiritualidade, transfiguram-se no livro através de outro rito: o rito do poema. A expansão da consciência, pela escrita, torna-se alma expandida em cada verso. Ramon busca o êxtase, a beleza, o amor, não por mera finalidade estética, mas por uma necessidade vital, por uma urgência do próprio ser.

Quando a vida é de fato incerta, com isso perdendo sua banalidade, “uma nova porta / se abre”. Por essa abertura, o poeta aprende a “admirar o que é / natural / o mais difícil”, aprende com as flores, com os mantras e com o corpo num momento concentrado de silêncio. Levando para a poesia esse outro tempo, no rito de comunhão do chá, quando “somos / um sonho dentro do sonho”, a palavra, como a vida, é cultivada até dar numa “flor de luz”. A partir de “ensinamentos naturais” semelhantes a esse, a partir do “fado interior / como obra”, Ramon opera uma alquimia em seu trabalho com a linguagem que amalgama poesia e existência.

 

HÁ UM MAR NO FUNDO DE CADA SONHO
Autor: Ramon Nunes Mello
Editora: Verso Brasil (88 págs., R$ 36)
* MARIANA IANELLI É POETA, AUTORA DE O AMOR E DEPOIS, TREVA ALVORADA, TEMPO DE VOLTAR, ENTRE OUTRAS OBRAS

 

LINK DA MATÉRIA: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,ramon-nunes-mello-mostra-relacao-mais-intima-com-a-palavra-em-seu-terceiro-livro,10000059189

Críticas e Resenhas 

Paixão por poesia, política e empatia social dão o tom da mesa ‘O palco e a página’ 

Sérgio Luiz
Jornal O Globo

Numa vazia Tenda dos Autores, a mesa “O palco e a página”, com o poeta Ramon Mello e a escritora, rapper e dramaturga inglesa Kate Tempest, encerrou a programação deste sábado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O pouco público presente, no entanto, acompanhou um bate-papo apaixonado sobre a musicalidade da poesia, com leituras instigantes e engajamento, tanto pela literatura quanto por temas de apoio a minorias e causas sociais, como frisou Mello ao tomar a palavra: “Queria dedicar essa fala a dois grupos que são importantes e estão sendo exterminados no Brasil: os homossexuais e os índios.”

Kate Tempest e Ramon Mello encerraram o sábado em Paraty - Alexandre Cassiano / Agência O Globo

 No início do debate, mediado pelo jornalista Daniel Benevides, ele comentou o constrangedor encontro de ontem à noite, quando cometeu uma gafe ao chamar a jornalista peruana Gabriela Wiener de “devassa” e afirmar que ela não era “uma mulher de família”.

- Como dizem, a segunda vez é melhor - brincou, antes de apresentar os convidados. - Apesar de jovens, os autores aqui presentes são muito talentosos, com obras bastante consistentes - disse Benevides.

E essa consistência pôde ser vista na performance elétrica de Kate, que acaba de lançar no Brasil seu primeiro romance, “Os tijolos nas paredes das casas” (Casa da Palavra). A inglesa de 31 compartilhou com a plateia como iniciou sua vida artística, que passa por música, teatro e literatura.

- A musicalidade do meu trabalho veio do lirismo do hip-hop, quando descobri a possibilidade de me comunicar através da música. A ideia de que a língua tem que viver numa página é um absurdo para mim. Um poema tem que ser lido, tem que arder com intensidade. Você não pode olhar passivamente para um poema. Ele tem que ganhar vida e explodir. Um poema é algo inacabado antes de ser ouvido - bradou Kate.

Bastante presente em sua obra, a mitologia aparece nos versos da autora como uma maneira de conectar as pessoas com uma força ancestral comum.

- Vivemos num tempo em que estamos desconectados. Sentimos falta de uma experiência compartilhada, de uma conexão com nosso passado que possa nos conectar com o presente e fugir da neurose que essa era nos inflige. Vivemos de maneira desumana e anti-natural, e acredito que a música e a poesia têm o poder de nos unir. Sou uma estranha aqui, mas me sinto parte desta tenda e de vocês - disse a escritora britânica, bastante aplaudida.

Num dia que contou com a bielorrusa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Nobel de Literatura de 2015 por sua literatura investigativa e empática sobre guerras e desastres ambientais, a mesa que encerrou o quarto dia de Flip foi uma das mais humanas e calorosas. Mello, que que é HIV positivo, falou sobre a criação do recém-lançado “Há um mar no fundo de cada sonho” (Verso Editora).

- Comecei a escrever esse livro depois de receber o diagnóstico. É muito estranho, bate aquele velho clichê: nunca achamos que vai acontecer com a gente. Então, quis entender como essa condição atravessaria minha escrita. Ainda há um pudor de trazer essa questão com naturalidade - contou Mello, que fez duras críticas ao governo interino. -- É inadmissível um governo fechar ministérios como o dos direitos humanos e o da igualdade racial. Temos o melhor sistema de medicação contra a AIDS do mundo, de graça. E ainda querem acabar com o SUS. É um absurdo - disse.

Quando o assunto foi a saída do Reino Unido da União Europeia, Kate foi implacável contra o resultado do referendo.

- O Brexit foi devastador. Na era em que vivemos, devemos nos aproximar uns dos outros, mas eles preferem se isolar numa pequena e gélida ilha. Não importa se você está à esquerda ou à direita. Temos problemas ambientais e humanitários graves, precisamos pensar como seres humanos.

 

LINK DA MATÉRIA: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/kate-tempest-ramon-mello-sao-ovacionados-na-flip-19635486

Críticas e Resenhas 

 

O poeta e jornalista Ramon Nunes Mello, de 32 anos, foi uma das atrações na 14ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A edição 2016, em que Ana Cristina Cesar foi homenageada, terminou neste domingo (3) e foi marcada pela poesia. Ramon falou na última mesa do sábado (2) e dedicou sua participação "a dois grupos que estão sendo exterminados no Brasil, que entendo como ato político". Citou então homossexuais e índios. Depois, criticou o presidente interino Michel Temer. "Me sinto profundamente envergonhado com o governo Temer. É inadmissível o governo acabar com o Ministério dos Direitos Humanos, das Mulheres, isso não existe, é crime." Nunes Mello lançou em abril o livro de poesia "há um mar no fundo de cada sonho". Publicou ainda "Vinis mofados" e "Poemas tirados de notícias de jornal". No dia 1º de dezembro do ano passado, Dia Internacional da Luta contra Aids, publicou no blog do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) um texto no qual dizia ser soropositivo.

O poeta contou na Flip como descobriu que é soropositivo e falou como isso influenciou sua obra. "Eu não conseguia escrever sem ser atravessado por essas questões. Passei a me espiritualizar mais, meditar. Isso me ressignificou a vida. Passei a me relacionar com as palavras de forma melhor."

Ele também agradou com leituras (na introdução de uma delas, o convidado tocou uma espécie de berrante indígena) e comentários sobre o fato de ser soropositivo. Reconhecendo o efeito do diagnóstico em seu livro mais recente, "Há um mar no fundo de cada sonho" (Verso Brasil), Nunes Mello afirmou por outro lado que entende que a literatura "não deva ser panfletária".

A aproximação da cultura indígena, segundo explicou, aconteceu depois do diagnóstico. "Passei a me espiritualizar mais, meditar, e o processo com Ayahuasca [também chamado de chá do Santo Daime] fundamental", comentou. "Tirou um processo de depressão profunda." Ele, que mencionou influências de música brasileira (Adriana Calcanhotto, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Marina Lima), hoje tem preferência por cânticos de pajés.

O poeta ganhou palmas ao pedir que mais mulheres sejam homenageadas pelo evento. Em 2016, pela segunda vez em sua história, a Flip escolheu prestar tributo a uma escritora. "Espero que venham mais mulheres, brancas, negras, todas que tiver", disse Nunes Mello. "Não por uma questão de gênero, mas de oportunidade. Porque há histórias que mulheres podem contar e que a gente não conhece, então venham, mulheres."

Por fim, criticou a visão "oitentista" que a sociedade costuma dirigir aos soropositivos e citou a "consciência política" que veio como consequência do resultado do exame. Pediu que o governo apoie os portadores do vírus HIV com distribuição gratuita de medicação e auxílio de transporte. E condenou a extinção de ministérios.

A jornalista Roseli Tardelli, diretora desta Agência, e as drags Dindry Buck e Sissi Girl, estiveram na Flip para uma roda de conversas sobre arte, aids e prevenção e distribuiram preservativos aos participantes do maior evento literário da América Latina. (leia mais)

Resultados da Flip

Na 14ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) caiu o público que assistiu aos debates dentro da tenda dos autores.

Segundo os organizadores, nos quatro primeiros dias de Flip compareceram cerca de 12,5 mil pessoas no espaço onde os grandes nomes falam. Já no ano passado foram mais de 13,2 mil pessoas.

No entanto, o público que acompanhou gratuitamente as palestras no telão do lado de fora cresceu. Neste ano foram 11 mil pessoas e no ano passado foram cerca de 8 mil pessoas. Ainda falta contabilizar a plateia das três mesas do domingo (3), último dia da Flip.

O diretor-presidente da Flip, Mauro Munhoz, considerou o resultado positivo para o cenário de crise e disse que este ano o evento trabalhou com menos recursos.

O curador do evento, Paulo Werneck, também ficou satisfeito e disse que a programação teve um tom político.

A diretora da Flipinha, Belita Cermelli, disse que público do evento neste ano foi diferente.

Redação da Agência Aids com informações da Folha de S. Paulo, do O Globo e da Agência Brasil

* A Agência de Notícias da Aids cobriu a Flip com o apoio da DKT do Brasil, da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e da Rosana Flores

LINK DA MATÉRIA: http://agenciaaids.com.br/home/noticias/noticia_detalhe/25076

Críticas e Resenhas 

kate tempest e ramon nunes mello emocionaram o público com suas leituras de poema (© andré conti)

 

Um poema é um texto, mas é também a forma de enunciá-lo. Na mesa “O palco é página”, ocorreram comoventes declamações da britânica Kate Tempest e do carioca RamonNunes Mello.

Poeta, rapper e escritora, Tempest recitou dois longos poemas com sua habitual habilidade performática e num ritmo único na voz e na gestualidade, sendo ovacionada pelo público.

 "Comecei essa jornada por via da música, meu primeiro amor [...]. A música dava a mim, como dá a muita gente, um senso de comunidade, um novo sentido para a experiência do mundo", lembrou. As leituras da britânica deixaram clara a mistura de influências da poesia clássica,da mitologia, do hip-hop e da cultura das ruas em sua produção e performance.

Nunes Mello dedicou sua participação na Flip a “dois grupos que estão sendo exterminados no Brasil", os homossexuais e os índios. Falou ainda da alegria de estar em uma Flip de mulheres. "Espero que venham mais mulheres, brancas, negras, todas que tiver. Não por uma questão de gênero, mas de oportunidade. Porque há histórias que mulheres podem contar e que a gente não conhece."

Soropositivo, ele contou como a descoberta influenciou sua obra: “Eu não conseguia escrever sem ser atravessado por essas questões”. Comentou ainda dos tabus que insistem em torno do tema: “A gente ainda enxerga o HIV com uma ótica dos anos 1980”.

Ao ser questionada sobre o Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – Tempest foi, mais uma vez, incisiva: “É devastador para mim que, nesses tempos em que temos tantos avanços na comunicação direta, as pessoas tenham optado por se isolar numa ilha.”

A noite terminou com nova rodada emocionante de declamações. Os poetas foram aplaudidos de pé, por alguns minutos, ao fim da mesa.

 

LINK DA MATÉRIA: http://flip.org.br/edicoes/flip-2016/noticias/poesia-como-ato

Críticas e Resenhas 

 

Juliana Gragnani e Luiza Franco
Folha de São Paulo

A inglesa Kate Tempest, 31, e o carioca Ramon Nunes Mello, 32, transformaram a leitura de seus poemas em um show. Os dois participaram da última mesa na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste sábado (2).

E o público pediu mais. Atendendo a pedidos da plateia, os dois interpretaram mais poemas no fim da mesa, intitulada "O palco é a página".

"Esse poema não está registrado por escrito. Mas aqui vai, vocês podem escutar ao vivo", disse Tempest, que sabe os poemas de cor, como música, e os interpreta de pé, ora de olhos fechados, com gestos que lembram o rap, no estilo do gênero "spoken word". Ela foi ovacionada de pé pelo público.

A artista dissera no início da mesa que a leitura em voz alta dá vida ao poema. "Poesia é linguagem cantada. O poema é algo inacabado até que é lido."

Nunes Mello, por sua vez, tocou uma concha como um berrante antes de interpretar, também teatralmente, um melancólico poema. Sua participação na conversa foi marcada por temas políticos: começou homenageando homossexuais e indígenas; depois, criticou o presidente interino Michel Temer. "Me sinto profundamente envergonhado com o governo Temer. É inadmissível o governo acabar com o Ministério dos Direitos Humanos, das Mulheres, isso não existe, é crime."

O poeta contou como descobriu que é soropositivo e falou como isso influenciou sua obra. "Eu não conseguia escrever sem ser atravessado por essas questões. Passei a me espiritualizar mais, meditar. Isso me ressignificou a vida. Passei a me relacionar com as palavras de forma melhor."

 Ainda que tivesse dito que não falaria de política para não entendiar as pessoas, Tempest acabou falando, e muito. Impelida pelo mediador, Daniel Benevides, a falar sobre o Brexit, disse: "Fico arrasada. Ao mesmo tempo que vejo um mundo ficando mais pacífico e tolerante, ser confrontada com a realidade que meus conterrâneos têm tanto medo do diferente que preferem ficar isolados numa ilhota fria me deixa muito triste. Por outro lado, pode acabar sendo uma coisa boa. Vai ter que piorar muito para depois melhorar".

Para ela, os mais jovens, que não puderam votar e crescerão num país mais intolerantes talvez tomem mais consciência e reajam, mas isso vai demorar muito.

Um ponto alto foi quando Tempest falou sobre gênero, sobre como é um desafio para a mulher ser ouvida e não só vista. "É quase um ato político só estar aqui, falando."

"Por meio da música e da poesia, encontrei minha força e minha identidade. Vocês estão aqui porque são apaixonados pela literatura. Espero que isso encoraje vocês."

 

LINK DA MATÉRIA: http://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/07/1788078-poetas-performers-transformam-leitura-em-show-na-flip.shtml

Críticas e Resenhas 

Em “Há um mar no fundo de cada sonho”, o autor carioca mostra que já pode ser considerado um dos nomes mais interessantes da poesia brasileira contemporânea

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Amante declarado das pal­avras, o escritor, poeta e jornalista Ramon Nu­nes Mello vem apresentando através da poesia o seu gênero literário mais promissor enquanto artista. Estreando com “Vinis Mofados”, em 2009, de lá para cá publicou “Poemas retirados em notícias de jornal” (2011), e recentemente, “Há um mar no fundo de cada sonho”.

Podemos encarar seu novo trabalho como um mergulho transcendental à vida interior, exterior e metafísica, num misto de confissão e amparo, solidão, mistério e epifania. Seus versos fragmentados mostram-se livres e consistentes, expondo a personalidade vívida e harmoniosa do autor de 32 anos, que se entrelaça em questões que abarcam o amor, a espiritualidade, a comunhão, o silêncio, a natureza, a vida e a morte.

Ramon Nunes Mello já pode ser considerado um dos nomes mais interessantes da poesia brasileira contemporânea, com uma dicção própria e muito característica de seu tempo. Seus poemas são apresentados de forma concisa e direta, como uma experiência sensorial de cunho intimista. Durante a leitura, podemos nos deparar com diálogos entre interlocutores imaginários ou um monólogo entre dois eus do poeta, que pergunta nos versos de “sol em aquário, lua em câncer”:

você me ama?
(…)
ama?
(…)
eu te amo
(…)
fim

Se na sua grande estreia literária, a música popular brasileira se fez presente, em seu segundo trabalho, a inteiração com os recortes de jornal remetia a uma linha de puro experimentalismo criativo, tendo como proposta a assonância de vocábulos que congregasse a linguagem dura do jornalismo para o lirismo e a subjetividade do verso.

No mais recente, Ramon Nunes Mello se envereda em uma nova praia, nutrindo embalos cósmicos de uma alma que exala por sentimentos e sensações luminosas em virtude da sua capacidade de observar o mun­do com olhos de quem não se deixa tra­gar pelo caos efêmero da pós-modernidade. Diminui a velocidade do tempo e organiza uma íntima ba­la­da de sons e silêncios, onde: “se­melhantes curam semelhantes curam semelhantes curam semelhantes (…)”, num “veneno-curativo” prodigioso, quase feito uma prece.

Livro nutre a alma do autor, que exala sentimentos e sensações em virtude da sua capacidade de observar o mundo com olhos de quem não se deixa tragar pelo caos efêmero da pós-modernidade

Em “luz” exibe-se um achado magnífico, que radica de forma pungente a força de sua poética, ao escrever que: “existir é um grito mudo e cons­tante/aprende-se aos tombos/ a ser grato por tudo/o que dói”. Em “Há um mar no fundo de cada sonho”, a virtuosidade criativa de Ramon se concentra na serenidade das coisas simples, na essência do instante-já, no agora e na concentração meditativa do tempo. Seu trabalho com a linguagem revela também a necessidade de expor o próprio âmago do fazer literário. A palavra como matéria vital que reforça a sensação do corpo introduzido às experiências com a natureza e o mundo. “Da sensibilidade e outras percepções agudas” encontramos:


um sol
dentro de
cada palavra

todos os dias
abro janelas
para iluminar
a língua

No poema “Leme” se apresenta as linhas que nomeiam o próprio livro, com a exclusão apenas da palavra “sempre”, inserida entre parênteses: “Há (sempre) um mar no fundo de cada sonho”. Além disso, o mesmo verso assinado pelo poeta nascido em Araruama, interior do Rio de Janeiro, rememora o título do primeiro livro do escritor Mário de Andrade: “Há uma gota de sangue em cada poema” (1917). Este marcado por uma ainda tímida ousadia do futuro pai do modernismo brasileiro.

Em “a vida efêmera dos peixes de aquário”, Ramon Nunes Mello em poucas palavras preenche seus versos de pura beleza e melancolia, ao construir uma síntese dicotômica, entrelaçando o animal e o signo para subjetivar o caráter alusivo de suas linhas que revelam:

no último mergulho
nada além da
ilusão

É possível também encontrar momentos de pura descontração quando o poeta diz em “não insista”: “meus poemas são os nudes”. Já em “poema cósmico”, a falta de inteiração de duas existências protagoniza pouco a pouco o seu inexorável distanciamento: “eu que­ro/lhe apresentar meu mun­do/mas você fica olhando o espaço”. No fim, troca-se a solidão da presença para a expansão autônoma da própria essência mimetizada em luz sobre o mundo: “numa viagem sem volta/agora pretendo expandir/apenas luz”.

O poema “Das coisas vagas” se in­clina ao culto pelo mistério e pela intuição:

permaneça
no mistério da alma ignorada das coisas
organize a vida em pensamentos
abstratos

Ao declarar-se publicamente soropositivo, Ramon Nunes Mello acabou construindo a figura de um ícone literário e político, sendo porta-voz de jovens e adultos silenciados pelo medo da discriminação

A vida após o HIV

Ao declarar-se publicamente soropositivo num emocionante relato ao site da revista Carta Capital, em 1º de dezembro de 2015, o poeta, também ativista dos direitos humanos, acabou por construir a figura de um ícone literário e também político, capaz de desbravar preconceitos e mitologias acerca da doença, sendo também um porta-voz de jovens e adultos brasileiros silenciados pelo medo da discriminação.

Se por um lado a sorologia pode ter influenciado em parte de sua atual produção, por outro mostra que o seu talento híbrido ou multifacetado (como poeta, escritor, jornalista literário, ator, pesquisador, produtor cultural e militante político) prevalece sobre o estigma do vírus. O HIV neste caso é apenas um mero detalhe — ou uma luta política.

Ramon Nunes Mello é uma daquelas figuras que representa a maravilhosa juventude antenada do século 21, que luta por liberdade, igualdade e justiça, trazendo aos nossos dias de cólera a poesia que nos falta (e que é necessário cultivá-la na vida). Para o poeta, é preciso que se “aprenda com as flores”, se­gundo relata em trecho de “sabedoria”: “é necessário/beleza/frente à finitude dos dias”.

Márwio Câmara é jornalista e pesquisador nas áreas de Literatura e Cinema. Mora no Rio de Janeiro.

LINK DA MATÉRIA: http://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/novo-livro-de-ramon-nunes-mello-e-um-mergulho-na-vida-interior-64816/

Matérias

14ª edição da Festa Literária de Paraty acontece de 29 de junho a 3 de julho

Poesia e ficção brasileira, história, jornalismo, literatura do luto e humor são alguns dos temas que atravessam a 14ª edição da Flip, que acontece de 29 de junho a 3 de julho. Neste ano, a Festa Literária Internacional de Paraty homenageia a poeta carioca Ana Cristina Cesar (1952-83), expoente da poesia marginal, geração que se formou nos anos 70, sob o peso da ditadura militar e à margem do mercado editorial.


Ana C., como era conhecida, será o tema da sessão de abertura, com um de seus amigos fundamentais e curador de sua obra: Armando Freitas Filho. O poeta carioca estará ao lado do cineasta Walter Carvalho, autor do documentário "Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície", um mergulho na poética de Armando. O filme tem como ápice a leitura, por Flávio Lenz Cesar, irmão da homenageada da Flip, da carta de despedida que Ana Cristina escreveu para Armando pouco antes de cometer suicídio.


O poeta carioca Ramon Nunes Mello, autor do recém-lançado Há um mar no fundo de cada sonho (Verso Brasil), está entre os poetas confirmados na Flip de Ana Cristina Cesar. Herdeiro confesso da Poesia Marginal desde o seu primeiro livro, Vinis mofados, neste que é seu terceiro volume de poemas Ramon tematiza o xamanismo, as relações com a natureza e com o sobrenatural, além da sua condição de portador do vírus HIV.


Outra autora confirmada na programação, Tati Bernardi põe à prova o seu talento de cronista e roteirista de comédias de sucesso para articular uma autoirônica narrativa confessional,Depois a louca sou eu (Companhia das Letras, 2016), verdadeiro prontuário de fobias e ansiedades.


O jornalismo está entre os pilares da programação da Flip e neste ano sua presença deverá ir além dos limites da Tenda dos Autores para ganhar as ruas de Paraty. Há uma década o jornalista Caco Barcellos nos ensina em seu programa na TV Globo a olhar de uma outra maneira para as cidades brasileiras. Caco também é um grande formador de novos repórteres, orientando-os a voltar às origens do ofício e manter o olho vivo para reportar aqueles fatos significativos que muitas vezes passam despercebidos sob a overdose de informação dos dias atuais. Ele e sua equipe terão uma dupla participação na Flip 2016: na Programação Principal, para falar da narrativa telejornalística, e na FlipZona, a cobertura da Flip que é feita pelos jovens de Paraty.


Entre os destaques internacionais a Flip tem a honra de receber a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch. A autora se vale de seus ouvidos de repórter e da tradição literária russa, em especial a sua peculiar capacidade de observação de tipos populares, para compor em seus livros um painel de dimensões épicas sobre as décadas finais da União Soviética. Da explosão de uma usina nuclear em 1986, foco de Vozes de Tchérnobil, à participação de mulheres no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45), tema da obra A guerra não tem rosto de mulher, Svetlana deu relevo literário à narrativa jornalística.


Nascido em Haarlem, na Holanda, em 1956, Arthur Japin é conhecido em seu país pelos mergulhos literários na mente de personalidades de diferentes tempos e contextos históricos. Foi assim em The Two Hearts of Kwasi Boachi (1997), que romanceia a vida de um príncipe da Costa do Ouro africana que é levado à força para a Europa; ou em Os olhos de Lúcia (Companhia das Letras, 2007), narrado por uma namorada de Casanova que o abandonou. Japin vem à Flip para lançar O homem com asas (Planeta), que recompõe a personalidade de Alberto Santos-Dumont a partir de um episódio quase esquecido em seu próprio país: o roubo de seu coração pelo médico-legista encarregado de embalsamá-lo.


Seis anos depois de sua primeira participação na Flip, o escritor americano Benjamin Moser volta a Paraty para fazer um balanço de seu impressionante trabalho de divulgação mundial da obra de Clarice Lispector e para lançar um livro inédito que tem o Brasil como tema principal. Os ensaios de Autoimperialismo (Planeta) refletem sobre o presente e a história do país a partir de questões da arquitetura brasileira. Moser também lançará em Paraty a edição brasileira, pela Rocco, de Todos os contos de Clarice Lispector, destaque do mercado editorial internacional em 2015.


Uma das grandes revelações literárias da atualidade, a escritora britânica Helen Macdonald, vai a Paraty para lançar F de falcão (Intrínseca), o admirável registro de seu aprendizado da arte da falcoaria, que a ajudou na superação do luto pela perda do pai. O livro foi publicado em dezenas de idiomas e recebeu os prêmios Costa (livro do ano) e Samuel Johnson.


Flip 2016


Com curadoria de Paulo Werneck, a 14ª edição da Flip homenageia a poeta Ana Cristina Cesar (1952-83), expoente da geração da Poesia Marginal, que nos anos 1970 se firmou distribuindo edições caseiras no Rio de Janeiro, ao largo do mercado editorial e sob o peso da ditadura militar, fundando uma vertente marcante na poesia brasileira contemporânea.

Matérias

EURÍDICE FIGUEIREDO
ESPECIAL PARA A FOLHA

É bem-vinda a volta às livrarias de "A Imaginária", de Adalgisa Nery (1905-1980), romance publicado originalmente em 1959. A edição bem cuidada, organizada por Ramon Nunes Mello, que tem prefácio de Ana Arruda Callado, posfácio de Affonso Romano de Sant'Anna e nota biográfica, recoloca a autora em circulação.


Adalgisa foi casada com o pintor Ismael Nery (1900-1934), morto prematuramente de tuberculose, aos 33 anos, cuja obra só começaria a ser reconhecida a partir de 1965, quando foi incluída na Bienal de São Paulo.


Trata-se de um romance autobiográfico no qual ela conta sua vida até os primeiros anos de viuvez. Inicialmente narra uma infância atribulada devido à doença e, em seguida, à morte da mãe, quando ela tinha 8 anos.


O casamento do pai e os desentendimentos com a madrasta a levam a um internato, do qual sairia logo. Aos 15 anos se apaixona por um vizinho e se casa com ele, contrariando a vontade do pai. A partir de então, sua vida é perturbada pela loucura da sogra, sempre chamada de "a mãe do meu marido".A protagonista é a única personagem que recebe um nome, Berenice, as outras são entidades como "o meu marido", "a tia do meu marido".


Ela vive numa casa de loucos, com brigas constantes. Funcionário público que desprezava seu emprego, o marido parece-lhe inteligente e digno de admiração, tem amigos intelectuais que frequentam sua casa. Submissa, em posição subalterna, ela assiste às conversas, não participa delas.


Com a doença do marido, a situação se deteriora de vez, já que ela tem de se submeter ao seu contato físico, mesmo nos acessos de tosse, sem falar das infidelidades que ele não tenta esconder.


CONFLITOS

Embora realce mais os conflitos familiares do que a sua formação intelectual, é certo que ela era uma jovem inculta ao se casar, ao passo que, após a morte do marido, teve condições de arrumar emprego e cuidar de sua vida de maneira autônoma. Adalgisa publicaria seu primeiro livro de poesia em 1937, três anos após a morte de Ismael Nery, incentivada por Murilo Mendes, seu admirador, que tinha sido amigo do marido morto.


Narrado em primeira pessoa, bem escrito e bem estruturado, o romance é centrado na protagonista que, desde o início, mostra-se um ser sensível e rebelde, que não aceita ordens e contrariedades.


A personagem-narradora tende a explicar de maneira enfática demais sua personalidade, o que prejudica o andamento e o interesse da história, mas isso não diminui o interesse do romance.


EURÍDICE FIGUEIREDO é professora do programa de pós-graduação em literatura da Universidade Federal Fluminense.
A IMAGINÁRIA
QUANTO R$ 40 (352 págs.)
AUTORA Adalgisa Nery
EDITORA José Olympio

BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates