“Vira-lata de raça: memórias” deverá desvendar capítulos importantes da história oculta do cidadão Ney de Souza Pereira


 Por Mauro Ferreira, G1

 “Eu sou só um bicho carente de carinho/ Uma criança problema no meio de um dilema/ Ou choro sozinho num canto na hora do espanto/ Ou banco o palhaço e faço estardalhaço”.

Os versos acima são parte da letra de “Vira-lata de raça”, música escrita por Rita Lee – em parceria com o filho mais velho, Beto Lee – para perfilar Ney Matogrosso e lançada pelo cantor há 20 anos no visionário álbum “Olhos de farol” (1998).

Duas décadas após o lançamento da composição, até hoje gravada somente por Ney, a música “Vira-lata de raça” batiza o livro de memórias que o artista mato-grossense vai lançar neste mês de novembro pela editora Tordesilhas.

A obra contém depoimentos inéditos de Ney na primeira pessoa, além de fotos do artista em diversas fases da vida. A organização do livro, a pesquisa de dados e as conversas com Ney para a coleta dos depoimentos foram confiadas a Ramon Nunes Mello, escritor e poeta fluminense conceituado no universo literário.

O icônico cantor lembra de momentos marcantes de sua trajetória pessoal e profissional, dos anos 1970, quando despontou no cenário nacional com a banda Secos & Molhados, até agora. Ele ressalta a importância de sua formação familiar – principalmente a relação conturbada com a autoridade do seu pai –; os lugares onde viveu pelo país; a forte conexão espiritual com a natureza; a experiência com as drogas; a certeza e o desejo de ser um artista realizado; o combate a censura e transgressão estética; a liberdade para lidar com sua sexualidade e seus amores, como a relação que viveu com Cazuza; a firmeza para lidar com as perdas da vida; e a leveza para lidar com o passar do tempo e se reinventar.

A edição do livro “Vira-lata de raça” deverá desvendar capítulos importantes da história oculta do cidadão – Ney de Souza Pereira, de atuais 77 anos, completados em 1º de agosto – que vive por trás da personalidade artística de Ney Matogrosso, nome referencial no universo do canto masculino brasileiro.

Até então, o único livro sobre a vida do artista é “Um cara meio estranho” (1992), escrito por Denise Pires Vaz, editado há 26 anos e já fora de catálogo há cerca de duas décadas. Houve em 2002 um (também já raro) livro de fotos, “Ousar ser”, com entrevistas com Ney, mas calcado sobretudo em imagens do artista.

Por Ney Anderson

“Sigo obedecendo uma voz dentro da minha cabeça, que me orienta a falar a verdade. Optei sempre pela verdade, assim sigo com a minha consciência tranquila. Não tenho rabo preso com ninguém, só trabalho com a verdade. Desde  o início da minha vida pública, com o Secos & Molhados, quando nunca tinha dado uma entrevista na minha vida, a voz surgiu dentro da minha cabeça: simplesmente, fale a verdade. Foi o que fiz , e faço até hoje”. Essas palavras que estão no livro Vira-lata de Raça (Tordesilhas), as memórias de Ney Matogrosso, dão o tom do que o leitor vai encontrar nas quase trezentas páginas da obra. A narrativa é baseada em entrevistas antigas na imprensa, que foram atualizadas e organizadas pelo poeta Ramon Nunes Melo, em três grandes conversas com Ney durante um ano.

Diferente de outros livros do tipo, Ney não se desnuda. Vira-lata de Raça (Tordesilhas) serve de forma ampla para o leitor conhecer o seu pensamento, seja como artista ou ser humano, dentro do processo evolutivo, como é afirmado diversas vezes. É uma grande conversa sobre diversos aspectos da vida dele. Algumas vezes os assuntos se repetem. Como a sintonia que ele mantém com a natureza, que vem desde criança.

Ainda que dividido por dez capítulos, não existe uma cronologia nas histórias, é como se as lembranças fossem surgindo sem ordem, porque tudo funciona como uma grande conversa de Ney narrando fatos desde quando ele era muito pequeno, em Bela Vista, e as sucessivas mudanças de endereço por conta do pai militar, até acontecimentos bem recentes. Como a polêmica com o cantor pernambuco Johnny Hooker, sobre uma entrevista para a Folha de São Paulo, onde Ney disse não ser um estandarte gay, mas um ser humano. E as comparações com David Bowie. O outro, Ney diz, era inglês, e ele, latino-americano, brasileiro, índio, nu. Mas sobretudo brasileiro, neto de avô argentino e avó paraguaia, que sempre teve a noção do pertencimento a sua terra e as origens. E por isso mesmo nunca pensou em fazer carreira estrangeira, cantando em outro idioma.

O livro não é uma biografia (ou autobiografia) tradicional com detalhes dos seus shows, por exemplo. Mas um mergulho dentro de si mesmo, em situações que foram moldando o seu pensamento, culminando na persona artística que surgiu nos anos 1970. Se hoje se discute a questão da androginia da música brasileira, ainda com bastante preconceito e luta por direitos, Ney já dava a cara a tapa há 45 anos, num período altamente repressor. Desafiando a ditadura militar com as armas da liberdade de expressão. Mas esse é apenas um dos aspectos da sua extensa e multifacetada trajetória.

Ele relembra a influência do teatro, do cinema, o amor pela pintura e a leitura, a descoberta da atração por homens, no quartel em Brasília e a paixão pela leitura. E comenta situações marcantes, como o surgimento da Aids, quando perdeu muitos amigos, e o retrocesso comportamental que o país está vivendo atualmente. Sempre indo e voltando no tempo, ele relata diversas vezes a sua forma desapegada de ser, justamente pelas constantes mudanças de endereço quando era criança, por conta das transferências do pai.

Mesmo sendo um livro de memórias, a obra oferece apenas pequenas pistas para o enigma Ney Matogrosso, que desde sempre foi alguém misterioso. Não é uma pessoa que se possa acessar todos os detalhes. Mesmo depois de alguns livros, documentários e diversas entrevistas ao longo de quase cinco décadas de histórias, Ney é alguém impossível de classificar.

Para o fã que espera por histórias novas, dificilmente ele vai encontrar algo que o artista já não tenha falado antes. Não existe, por exemplo, o relato de como foi o processo de criação das turnês, da escolha do repertório, com várias músicas emblemáticas no cancioneiro popular. Nesse sentido, o artista fala bastante do início, com os Secos e Molhados, dando um panorama de como foi surgir durante a ditadura desafiando o poder instituído, por meio de apresentações que abalaram os mais conservadores, se tornando rapidamente um fenômeno.

O livro mostra muito bem outro aspecto da personalidade do Ney, com lembranças do seu processo espiritual por meio do Santo Daime e do Fischer Hoffman, que serviu para lhe colocar em contato com forças transcendentais. A relação com as drogas, e a obsessão por sexo depois dos trinta anos de idade, que durou por muito tempo, mas que hoje não é determinante, segundo ele.

No campo amoroso, Ney relembra a ligação com Cazuza e também com Marco de Maria, com quem teve um relacionamento por 13 anos, e ainda sobre a sua primeira paixão quando ele tinha 21 anos e o namorado mais de quarenta. Mas o cantor não entra no espaço íntimo das relações. Nessas duas últimas, ele apenas cita o envolvimento.

É perceptível também que o pai dele foi uma grande influência em sua vida, já que Antônio (oficial da aeronáutica) era contra tudo o que o filho fazia ou queria ser. A atitude rebelde do artista, de lutar contra a opressão através das apresentações, de alguma forma, nasceu dentro de casa, com o enfrentamento à autoridade do pai. “A maior autoridade que enfrentei na minha vida foi Antônio Matogrosso Pereira”, diz.
Ney preferiu também não expor os artistas que se opuseram em compor exclusivamente para ele no início da carreira e as perseguições que sofreu por parte da mídia, como a censura que sofreu no começo da carreira solo do apresentador Carlos Imperial e do Jornal do Brasil.

Talvez esses detalhes mais específicos, sejam melhor esmiuçados na biografia que está sendo escrita pelo jornalista Júlio Maria, o mesmo que escreveu a biografia de Elis Regina, prevista para ser lançada no primeiro semestre de 2019, pela Companhia das Letras. Porque em Vira-lata de Raça, Ney comenta rapidamente a sua participação como diretor e iluminador de shows do RPM, Simone, Chico Buarque, Cazuza, entre outros, mas não entra no trabalho minucioso da elaboração desses trabalhos. Ele não fala, por exemplo, da feitura dos videoclipes que marcaram época.

Ainda assim, é um trabalho que merece atenção, porque não se está falando de qualquer pessoa. A história de Ney se mistura com a história do Brasil. O livro não pretende ser um desabafo, como o próprio cantor fala, mas o seu pensamento sobre vários assuntos. É possível compreender que Ney sempre foi artista (no sentido mais amplo da palavra) antes mesmo de ser efetivamente cantor.  Para quem não conhece o trabalho dele, essa leitura é uma boa porta de entrada.

Porque aqui ele fala da sua formação intelectual, o deslumbramento inicial na figura da cantora Evira Pagã, na Rádio Nacional, que lhe despertou, ainda na infância, o lado exótico e sensual que ele adotaria anos depois nas performances musicais. A vida hippie, o período que se alistou na Aeronáutica no Rio de Janeiro, depois indo trabalhar no Hospital de Base, em Brasília, onde ele cuidou de crianças com câncer.  E admiração por Elvis Presley, Marlon Brando e James Dean, até chegar na influência de Caetano Veloso. Ou seja, os gênios indomáveis e brilhantes que atravessaram gerações foram o alicerce criativo para o que ele iria ser no futuro: um artista transgressor. Não por acaso, o título, retirado da música homônima de Rita Lee, composta especialmente para ele, reflita muito bem essa condição de liberdade artística e pessoal, de alguém que nunca se sujeitou a nada, nem a ninguém.

A obra, portanto, é o relato geral, em primeira pessoa, da vida e da arte do mato-grossense que explodiu nas paradas de sucesso nos anos 1970, com o mítico Secos & Molhados, fazendo uma espetacular carreira solo, lhe inserindo na história da música brasileira como um dos principais representantes.

Vira-lata de Raça mostra muito claramente a personalidade que foi se moldando desde a infância, passando pela relação conturbada com o pai, até a personificação da figura híbrida que surgiria anos mais tarde, seminu, travestida de tanga, penas, adereços e pintura pesada no rosto. O livro apresenta como o cidadão Ney de Souza Pereira se transformou inevitavelmente na figura popular exótica sem precedentes na música brasileira, com o “detalhe” da marcante voz de contralto. Até hoje motivo de bastante admiração.

É bastante claro neste livro, que tem alguma coisa impossível de acessar na personalidade do artista, uma áurea de mistério que nunca é ultrapassada. Que foi sendo reforçada ao longo do tempo, principalmente quando ele resolveu participar de rituais como o Daime e o Hoffmann, para tentar se conhecer melhor, jogando dessa forma uma enorme cortina de fumaça para o público que o acompanha.

A obra reúne 70 fotos de variadas épocas, algumas raríssimas, e discografia completa, com a lista de turnês, participações no teatro, cinema e a direção dos shows de outros artistas, além de extras, com matérias e artigos de Caio Fernando Abreu, Tárik de Souza, Nelson Motta, Vinícius Rangel e Mauro Ferreira.

O livro não é uma obra fechada, até porque Ney continua na ativa. Vira-lata de raça termina justamente como terminam todos os seus shows. Com aquele gosto de quero mais. Reforçando o caráter libertário do artista, em todos os sentidos e apresentando ao leitor a trajetória caleidoscópica de alguém em constante reinvenção, com desdobramentos infinitos, como cita Ramon Nunes no prefácio. É um livro coerente. Ney Matogrosso, como ele mesmo afirma, continua reunindo os opostos, confundindo as classificações e diluindo os rótulos.

“Meu destino é ser um astronauta lírico, com toda a liberdade. Neste tempo de gente insana, sou bastante consciente do poder da palavra, do canto, da energia que emitimos para o outro. Tenho consciência do exercício da liberdade, vou morrer defendendo a liberdade, até o fim. Sou um homem livre, somos seres livres e temos de afirmar isso o tempo todo. Gostaria que a lembrança sobre a minha passagem neste planeta seja de alguém que ousou lutar contra a hipocrisia e queria voltar como espírito guardião da natureza. Quero ser lembrado como uma pessoa que defendeu a liberdade e espero, sinceramente, que enxerguem na minha vida o reflexo dessa liberdade. Quero ir em paz, na hora que tiver que ir, e no meu epitáfio estará escrito assim: “Viveu livre!”. 


http://www.angustiacriadora.com/2018/12/ney-matogrosso-revela-memorias-em-livro-autobiografico/

Por Mauro Ferreira, G1

"Ainda hoje eu falo as mesmas coisas e defendo os mesmos ideais há décadas". Exposta no texto escrito por Ramon Nunes Mello para conceituar o relato das memórias de Ney Matogrosso, a frase do cantor reforça a coerência do pensamento reverberado, na primeira pessoa, no livro Vira-lata de raça.

Ao mesmo tempo, a sentença enfatiza o fato de que, a rigor, a essência desse pensamento já vem sendo explicitada e documentada desde os anos 1970 em entrevistas do artista e, de forma mais profunda, em Um cara meio estranho (1992), subestimado livro em que a autora Denise Pires Vaz tirou a fantasia de Ney em abordagem de caráter quase psicológico.

Com lançamento no Rio de Janeiro (RJ) marcado para a noite de hoje, 13 de novembro, em sessão de autógrafos na filial da Livraria da Travessa do bairro do Leblon, Vira-lata de raça – Memórias (Editora Tordesilhas) atualiza o discurso de Ney diante da onda conservadora que assola o Brasil de 2018 sem alterar o pensamento do cantor.

O livro é assinado por Ney, mas o fluente texto é produto da organização cuidadosa de Ramon Nunes Mello, escritor e poeta fluminense que conheceu o cantor em 2011 e, de lá para cá, pesquisou e captou os depoimentos do artista que geraram o livro.

Vira-lata de raça escapa intencionalmente do formato biográfico. Trata-se, como sublinha o subtítulo, de livro de memórias em que Ney discorre sobre a vida e a própria personalidade ora altiva ora reclusa – especialmente sobre a vida na infância, na adolescência e na fase juvenil pré-fama que se encerrou com a entrada do cantor em 1971 no conjunto Secos & Molhados. Essa personalidade rara o tornou um cara meio estranho, um cantor singular de voz única no universo pop.

Quem fala no livro é o cidadão Ney de Souza Pereira, criador da personagem artística que atende pelo nome de Ney Matogrosso. Quem somente conhece o artista através da fantasia do palco terá dose maior de surpresa com a leitura de Vira-lata de raça.

Já quem acompanha atentamente os sinais emanados pelo cantor em entrevistas em nada vai se surpreender. "Quem analisar minhas declarações públicas, em diferentes tempos, vai perceber que sempre agi com verdade e coerência em defesa da liberdade. Há tempos, venho batendo na mesma tecla: a liberdade", enfatiza Ney na página 190.

Sim, a rigor, Vira-lata de raça é libelo contra toda forma de repressão e opressão. Na infância e adolescência de Ney, a repressão foi simbolizada na figura do pai militar e castrador, Antonio Matogrosso Pereira, de quem o cantor herdou o nome artístico e com quem somente se reconciliou através da arte, quando já era um ídolo nacional.

O pai é personagem central no início da narrativa. A partir da explosão do Secos & Molhados, grupo que entrou em cena em dezembro de 1972 e se transformou na sensação musical de 1973, o opressor pode adquirir tanto a forma dos militares que ditavam as regras do Brasil como a figura difusa do público que às vezes se escandalizava com aquele cantor de voz andrógina e rosto pintado que transitava na tênue fronteira entre o masculino e o feminino, encantando as crianças e descortinando hipocrisias sociais. Um artista de voz ativa, articulada sobretudo como arma política nos sombrios anos 1970.

A partir do fim do Secos & Molhados, a narrativa perde o tom cronológico. Ney passa a discorrer sobre temas gerais (sexo, drogas e atitude rock'n'roll) que contribuem para elucidar a postura libertária do cantor diante da vida louca vida. Embora soe por vezes repetitivo, o relato reitera a coerência do artista na vida e na música.

Com o corpo inicialmente fechado para o amor, Ney lembra como se abriu para o afeto ao conhecer Cazuza (1958 – 1990), com quem viveu tórrido relacionamento durante três meses de 1979. Tempo suficiente para aflorar amor que persistiu por toda a vida, com transas eventuais, mas sem a formalidade e os códigos de convivência que regem as relações afetivas convencionais.

Nesse sentido, o relacionamento mais longo de Ney foi com Marco de Maria, com quem o cantor viveu por 13 anos com a liberdade de ter outros parceiros sexuais. Por isso mesmo, a narrativa poderia ter aprofundado mais a natureza dessa relação tão especial na vida desse artista que reitera no livro a recusa em ser visto como porta-voz da comunidade gay por acreditar que a sexualidade humana extrapola rótulos.

Valorizado por reproduzir fotos inéditas do cantor, textos sobre o artista publicados na imprensa por críticos musicais e discografia completa (com capas de discos e nomes de músicas e compositores), o livro Vira-lata de raça mostra Ney atento aos sinais preocupantes dos tempos de hoje.

Aos 77 anos, a bandeira da liberdade continua hasteada por esse artista camaleônico que troca de pele a cada show sem deixar de ser essencialmente o mesmo cantor indomável que, de cara limpa ou encoberto por figurinos e adereços fantasiosos, dá voz no palco às firmes convicções do cidadão Ney de Souza Pereira.

Vira-lata de raça – com pesquisa, interlocução e organização do poeta e escritor Ramon Nunes Mello – traça o caminho do artista: uma história de recusa de limites

Por Leonardo Lichote, Revista Época

As primeiras palavras de Vira-lata de raça (Tordesilhas), livro de memórias de Ney Matogrosso, são “sempre reagi ao autoritarismo”. As últimas, uma projeção do epitáfio futuro: “Viveu livre!”. Na linha que liga passado e futuro, infância e maturidade, o volume — com pesquisa, interlocução e organização do poeta e escritor Ramon Nunes Mello — traça exatamente um caminho que se mostra em suas duas pontas: uma história de recusa de limites. O uso de drogas servia a isso, bem como a relação de Ney com o divino, sua vida sexual e, evidentemente, sua persona no palco e sua trajetória artística. Na página 99: “Na recepção dos hotéis preencho a ficha de hóspede assim: ‘artista’. Não escrevo ‘cantor’, pois não quero me limitar”.

“Liberdade é a única coisa na qual acredito. É minha maneira de estar na Terra, encarnado aqui”, afirmou o cantor, ou melhor, o artista de 77 anos, que olha para o relato exposto em Vira-lata de raça e reconhece ali essa jornada pela liberdade. “A vida é uma jornada, o ponto final é a evolução espiritual. É o que eu sempre idealizei em todos os momentos. As drogas eu usei com essa função, principalmente o lisérgico. O que se abria para mim com o ácido era a compreensão de Deus. A primeira vez que tomei um, estava em Búzios, na praia. Olhei para a areia na minha mão e entendi Deus, a criação, que tudo é importante e tem o mesmo valor.”

A revelação de Deus nos grãos de areia, o infinito no minúsculo — é disso também que trata o livro. Os pedaços de couro descartados que o jovem hippie Ney usava para fazer as joias artesanais nas quais exercitava o olhar plástico presente ao longo de sua carreira — e que já se mostrava nos desenhos da infância. A troca do verso de “Pro dia nascer feliz” por “f... pra ser feliz”, brincadeira que fazia nos shows sempre que na plateia estava o autor da canção (o amigo Cazuza, com quem teve um relacionamento amoroso de três meses, “uma paixão que se consumiu nas labaredas dela própria”). A resposta aos colegas de Secos & Molhados, que no início da banda o enquadraram por seus “exageros” no palco — estavam gerando boatos de que eles seriam “um grupo de bichas”: “Digam que vocês não são”. Detalhes que pintam o retrato de Ney, harmonizando tons de transgressão e sensibilidade.

Vira-lata de raça foi feito sobretudo a partir de depoimentos dados por Ney ao longo de sua vida e compilados agora por Nunes Mello — o organizador também tirou material de três longas conversas com o artista. Por isso, o livro — que será lançado no dia 8 em São Paulo, na Saraiva do Shopping Pátio Paulista, e no dia 13 no Rio de Janeiro, na Travessa do Shopping Leblon — mira menos em revelar fatos e nomes e mais em expor um panorama extenso da vida, da personalidade e do pensamento de Ney. Até porque o artista sempre se expôs com muita clareza:

“Só existe uma verdade, não é? Não tenho versões da minha vida. Então quase tudo que está no livro eu já tinha falado. Afinal, na primeira entrevista que dei na vida, quando o jornalista se aproximou de mim, pensei: ‘O que eu vou falar?’. E entendi que eu tinha de falar a verdade. Porque assim você vive em paz com você mesmo, tranquilo com sua consciência, não vai ter ninguém atrás de você levantando escândalos sobre sua maneira de ser, de viver”, defendeu Ney, lembrando que há uma biografia sua sendo produzida pelo jornalista Julio Maria.

O limite da exposição, Ney diz, é sua intimidade. Um conceito que, para ele, é mais flexível do que para a maioria das pessoas. Ele associa intimidade a relacionamentos amorosos — já que não impõe barreiras quando o assunto recai sobre drogas, sexo ou política. “As coisas que eu preservo e são da minha intimidade jamais saberão, porque não tem como fazer levantamento disso. Intimidade é falar em nomes. Não quero escandalizar a sociedade, não quero fazer estremecer a MPB.”

No livro, porém, ele se permitiu deter-se sobre dois desses relacionamentos. Há um capítulo centrado em Cazuza. E também palavras dedicadas a Marco de Maria, seu companheiro por 13 anos. “Nunca tinha falado sobre o Marco”, contou Ney, referindo-se ao homem que recentemente foi chamado de seu “ex-marido” num jornal. “Isso é uma loucura. Nunca olhei para ele como marido, nem ele. Nunca passou pela minha cabeça chamar alguém de marido ou que alguém me chamasse de marido.”

Cazuza é lembrado num encontro na praia, quando Ney tinha 39 anos e viu “o moleque de 17 anos, cabelo comprido de cachos, parecia um anjo que havia despencado do céu, aquele pivetezinho da praia, um tremendo vagabundo”, “lindo” e “apaixonante”. E também como o amigo, já debilitado, que ele visitava para massagear-lhe os pés. Ou para quem havia dirigido o show Ideologia, todo pensado para tratar com elegância a fragilidade física que a aids já impunha ao compositor.

“Depois, vi numa entrevista Cazuza dizer que aprendeu comigo a respeitar o palco”, disse Ney. “Eu respeito o palco. Tentei transmitir isso para ele. Não é só subir e fazer loucura, mesmo sendo rock’n’roll. É um lugar onde você está tendo uma manifestação, está manifestando algo. Eu não cuspo no palco. Nunca cuspi. Jamais cuspiria. Pode ser uma bobagem para muita gente. Para mim não é.”

Ney lembrou que foi ele quem sugeriu que Cazuza incluísse naquele show a então inédita “O tempo não para” (“Essa música tem de encerrar o show, escuta o que ela diz”, falou na época). “Cazuza foi um dos grandes amores da minha vida, mas não foi o único. Talvez sua grande importância tenha sido me abrir uma possibilidade. Porque até ali eu não tinha nenhum interesse de namorar, de morar. Com ele tive a percepção de que era um amor e de que portanto poderia ser uma coisa mais próxima durante mais tempo.”

No livro, Ney relata outros trabalhos que fez como diretor, como quando sugeriu que os garotos da iniciante RPM explorassem a sensualidade, tirando os agasalhos e ficando sem camisa. Com Chico Buarque, ele não foi tão ousado, mas mesmo assim encontrou resistência, disse, ao lembrar um episódio que não está no livro: “Como a imagem dele ia ser projetada no telão durante o show, sugeri: ‘Chico, bota um colírio nesse teu olho que ele vai faiscar no telão’. Ele disse que não queria. Aquele olho lindo ia enlouquecer a multidão”.

O domínio de palco que Ney aprendeu a ter ao longo da vida — e a força que manifesta nele — vem do exercício de domar uma energia interna que sempre sentiu. Uma energia que, de tão intensa — ele contou —, acreditou que fosse levá-lo à loucura. “Tinha medo na adolescência, porque percebia dentro de mim uma violência que me assustava. Temia que, no dia em que eu liberasse isso, não voltaria mais. Viraria um assassino, um psicopata.”

“Durante certo tempo, olhava para as fotos dos Secos & Molhados e não me reconhecia, achava aquilo muito diferente de mim. Pensei ter dupla personalidade, achei que era esquizofrênico. Mas entendi que aquilo era uma manifestação que era necessário que fosse agressiva, senão eu teria sucumbido. Porque alguns públicos foram muito agressivos.”

Vira-lata de raça traça, portanto, essa jornada de delicadeza e agressividade. Seu ponto de partida é o menino reprimido pelo pai militar, descrito no livro como “a maior autoridade que enfrentei na minha vida”. Seus passos mais recentes mostram o artista que não se permite capturar nem pela patrulha identitária — a polêmica com o cantor pernambucano Johnny Hooker, que atacou Ney por sua declaração “gay o caralho, eu sou um ser humano”, está no livro — nem pela desonestidade do MBL — um membro do grupo tirou uma foto com ele sem se identificar e divulgou a imagem afirmando que Ney apoiava o impeachment de Dilma Rousseff.

“Você não pode mais estar relaxado no mundo”, afirmou Ney. Para ele, hoje somos mais caretas do que éramos nos anos 60, 70 e 80. “Acabamos de eleger o Bolsonaro, isso é um sintoma dessa mentalidade mais conservadora. Não estou com medo, não vou plasmar medo. Mas estou atento a ele, observando”, disse. “Por outro lado, vivi num mundo em que todo mundo era igual, havia o universal. Hoje é cada um na sua caixa. Quem é gay é gay, quem é feminista é feminista. Começamos a nos desprender uns dos outros, quando na minha cabeça tudo era uma coisa só. Tem um lado meu que entende isso. Essas pessoas talvez necessitem se desprender do todo para conseguir mais visibilidade, mais respeito. Mas não deixo de pensar que estamos perdendo o encanto de sermos todos uma coisa só, numa panela só.”

 

Link: https://epoca.globo.com/em-livro-de-memorias-ney-matogrosso-narra-sua-relacao-com-divino-sexo-liberdade-o-autoritarismo-23207417

Por Eduardo Coelho¹, publicado originalmente no posfácio do livro de poemas “Há um mar no fundo de cada sonho” (Verso Brasil, 2016), de Ramon Nunes Mello

Tempo e espaço navegando todos os sentidos
“Tempo rei”, de Gilberto Gil

Publicado em 2009, o livro de estreia de Ramon Nunes Mello intitula-se Vinis mofados e divide-se em duas seções, “Lado A” e “Lado B”. Embora pertecente à era digital, o poeta escolheu um suporte antigo como base de organização dessa obra. Trata-se de um anacronismo potencializado mediante o uso da palavra “mofados” no título, que compreende o sentido figurado de algo fora de moda. Contudo, a palavra “mofados”, quando associada a “vinis”, traz consigo a evidente influência de Caio Fernando Abreu, autor do romance Morangos mofados, de 1982, que já havia estabelecido diálogos com a música popular brasileira. 

Como destaca Heloisa Buarque de Hollanda na orelha da edição, “a palavra dita, a palavra sentida, a palavra silenciada, a palavra excessiva vem, de maneira muito explícita, articulada à palavra cantada”. Nessa articulação, torna-se claro o intento de valorizar uma tendência sentimental, presente em Caio Fernando Abreu, mas também recorrente em alguma poesia brasileira contemporânea, como a de Ana Martins Marques, Eucanaã Ferraz, Fabio Weintraub, Ismar Tirelli Neto,

Leonardo Gandolfi, Renato Rezente e Ricardo Domeneck, cada qual com seu repertório criativo específico.
Em Vinis mofados, junto desse teor sentimental é possível constatar, sobretudo no “Lado B”, uma forte adesão à espontaneidade, que alcança cores típicas da geração mimeógrafo, muitíssimo influente entre jovens poetas do Rio de Janeiro surgidos nos anos 2000. Exemplo notável disso é o poema “Control+Alt+Del”:

medito paro de
fumar ouço rorô ana
carolina

acendo vela canto
pra oxum faço
de tudo

pra apagar você
da memória fechar
conflitos

Os versos curtos revelam um tom informal, íntimo e confessional, bem como um cenário de forte sentimentalidade, com direito a referências ao fumo, a cantoras de dor de cotovelo e à Oxum, orixá que atende aos sofrimentos do coração.
Em Poemas tirados de notícias de jornal, publicado em 2012, o poeta distanciou-se da palavra cantada de Vinis mofados para lançar-se aos faits divers. No entanto, não se desvinculou inteiramente da música: logo após o sumário, há uma informação que matém o vínculo com as canções: “[escrito] ao som de Old Ideias, de Leonard Cohen”², lançado nesse mesmo ano. É o seu canto das musas, de voz gravíssima.

O “Poema atravessado pelo manifesto sampler” também recupera a articulação anunciada por Heloisa Buarque. Sua posição estratégica, na abertura do livro, é um aspecto que não pode ser esquecido. A partir do sampler, equipamento que grava e armazena sons, Ramon Nunes Mello elaborou a técnica-base para compor seus versos. São muitos os dados jornalísticos coletados, adulterados e arranjados, valendo-se também, dessa maneira, do modernismo brasileiro em diálogo com o jornal. Atravessado pelo “Manifesto sampler”, de Fred Coelho e Mauro Gaspar, há diversas orientações programáticas desenvolvidas por Ramon:

não copie e cole
se aproprie e recrie a realidade
use seu imaginário
carta de alforria para um primeiro
ato.³

No presente volume, Há um mar no fundo de cada sonho, algumas características dos títulos anteriores foram reativadas. No entanto, elas também sofreram transformações, provenientes especialmente de uma nova matriz de sua poética, que apresenta algo de xamanismo e algo de new age.[4] Assim, por meio da aproximação de um mundo da transcendência, estes poemas compreendem outra imagética, distante das cenas urbanas predominantes nos dois primeiros livros de Ramon Nunes Mello. Agora, são os mundos natural e sobrenatural que ganham espaço, compactuando entre si.[5] De alguma maneira, sua nova imagética parece consequência e radicalização de um mesmo princípio adotado anteriormente, que é a valorização de outras temporalidades, como os vinis mofados e as notícias de jornal. Tal processo valorativo manifesta um culto às coisas que não estão submetidas ao fácil descarte. O que se deseja é a permanência, a exigir uma desaceleração do fluxo temporal.

No título de estreia, a desaceleração pode ser observada na tentativa de recuperar o suporte anacrônico (retorno a um passado recente, mas que a princípio soa muito distante), em que a organização do livro em duas seções, “Lado A” e “Lado B”, pressupõe uma interrupção no andamento de textos e um reposicionamento do leitor diante dessa obra. É um momento de escuta do silêncio.

Em Poemas tirados de notícias de jornal, o mesmo princípio foi adotado por meio da apropriação, que requer um rigor investigativo e seletivo dos faits divers. Estes, por meio do ato poético, perdem sua celeridade e seu teor informativo, quase sempre esquecido num intervalo curtíssimo. Além disso, uma das estrofes finais desse livro exige uma reflexão sobre o tempo, que se revela muito mais central e prioritária em sua terceira reunião de versos:

 

pense no tempo

em nosso tempo

tempo

tempo

tempo

tempo[6]

 

Entretanto, é outro o tempo e o espaço de Há um mar no fundo de cada sonho: trata-se de um tempo não cronológico, absolutamente avesso aos princípios jornalísticos. Não está mais em cena o “nosso tempo”, relacionado ao presente. Ao contrário, o tempo é sobretudo mítico, concebido de modo cíclico, como em “irrupções poéticas” (“o que/ aconteceu no passado/ sempre acontece de novo”) e “quando olho a lua” (“senhora das marés/ conduz todo ritmo ensinando/ a compreender os ciclos”).

Não à toa, muitos de seus textos revelam um pacto do sujeito com o silêncio, frequentemente associado à contemplação do mundo natural e transcendental: uma planta cresce (“semente”); o “ritmo da natureza” é acompanhado pelo sujeito (“silêncio”); as folhas o “ensinam a lidar com/ o tempo” (“ensinamentos naturais”); a “turbulência mental” precisa “cessar” (“meditação”); a lua é adorada (“quando olho a lua”); “deus vulcão” é contemplado (“jesúvio”); o eu lírico ausculta o tempo “marcado pelo coração” (“labaredas”); gestos dos antepassados são repetidos (“antes de mergulhar”); “o perdão/ desmorona o tempo” (“quando”).

Ao elaborar sua poética mediante um estado de contemplação do mundo, a visão é, dos sentidos humanos, o mais destacado. O eu poético admira, contempla, olha e mira – a natureza e o sobrenatural. O campo da visualidade, contudo, ultrapassa os limites do que pode ser observado pelos olhos, pois o corpo se dedica principalmente à conquista da transcendência e à resistência ao instinto de morte, combatido em diversas páginas.

É justamente daí que todos os sentidos aparecem, reunidos. Desse lugar outro, imaterial, a plenitude alcançada ressoa em expressões que se repetem como mantras: “semelhantes curam semelhantes curam semelhantes curam semelhantes curam semelhantes curam”, de “veneno-curativo”. Apenas o último verso-linha apresenta uma supressão, a do verbo “curam”, fechando o texto ciclicamente: “semelhantes” é o vocábulo que abre e fecha o poema. Esse verso, que persegue por inteiro a linha da prosa, repete-se 44 vezes, sendo portanto a enunciação em série o mais novo elo que Ramon estabeleceu com a música. A fórmula mística do mantra substitui a música popular brasileira, que agora não está presente em sua lírica.

No “mantra” desse e de outros poemas existe uma dimensão ecológica-religiosa. Uma vida colaborativa e harmônica é invocada em forma de orações, às vezes até mesmo à moda de versículos, com mensagens compactadas e ricas de simbologia. Os versos chegam a se organizar como oferendas, o que pode ser observado em “fim”:

 

a liberdade do louco

começar do zero

caminhar com a força

do amor e das leis do universo

 vinho das visões prodigiosas

ofereço minhas palavras

 para sempre

a escrita do silêncio

 dai-me

Dessa maneira, a experiência ecológica-religiosa se encontra na esfera das grandes revelações. As palavras também foram assim concebidas, como um néctar, uma bebida dos deuses. Em “da sensibilidade e outras percepções agudas”, revela-se que “há/ um sol/ dentro de/ cada palavra”. Contudo, nenhuma epifania seria conquistada se não houvesse a natureza. Entre outros meios, a epifania se manifesta pelo “movimento/ dos girassóis, num dia nublado”. A epifania está em todas as coisas e, para alcançá-la, basta contemplar e estar disponível a elas. Sob tal aspecto, a poética de Ramon Nunes Mello está revelando uma abertura ao mundo, uma aceitação das diferenças, que não devem ser julgadas, mas admitidas e harmonizadas com a totalidade.

A natureza ainda ocupa o lugar de Grande Mãe, autônoma, que “basta por si” (“aqui onde estou”). É ela quem ensina, como as folhas em “ensinamentos naturais”; é para ela que deve se viver. Dessa ética nascem índices de religiosidade. Assim, por meio do vínculo estabelecido entre o natural e o sobrenatural, combate-te o medo e conquista-se o equilíbrio do sujeito, uma experiência recorrente no livro. Forma-se uma tríade entre o natural, o sobrenatural e o autoconhecimento.

Com a finalidade de combater o preconceito, em “O sentido de urgência: a necessidade de se conversar sobre o HVI”, publicado no site da revista Carta Capital a 1o de dezembro de 2015, Ramon Nunes Mello revela publicamente que está soropositivo. Destaco o seguinte trecho do depoimento, esclarecedor para compreender a nova orientação de sua poética:

O que mudou [depois da descoberta da contaminação com o vírus da AIDS]? Inúmeras coisas, principalmente no que diz respeito ao amor próprio. A conexão com o que me fortalece se aprofundou: a linguagem literária como busca e forma de vida; a prática do yoga, da meditação e do silêncio com mais profundidade; o exercício da minha fé na comunhão com a natureza, através da ayahuasca – planta mestra, enteógeno, que ensina a valorizar o ouro das palavras e a ancorar a presença no corpo. Aceito o chamado, integro o medo, confio em minha transformação e agradeço a chegada de dias auspiciosos, em busca de amor, liberdade, humor, paz, alegria e solidariedade.[7]

Contudo, ao lado da busca por equilíbrio, revelam-se tensões. A própria obra contém um “caráter/ de urgência” e consiste num “testemunho de um/ sujeito// diante do abismo”, conforme “fé”, mas sem aderir a qualquer tom dramático ou vitimizante. Como o título alerta, “há um mar no fundo de cada sonho”. No interior do livro, o poema “leme” apresenta o título fraturado em versos, apenas sofrendo o acréscimo de “(sempre)” depois do verbo haver. Este mar e este sonho estão (sempre) abertos a muitos sentidos. Talvez seja possível vislumbrar um que se encontra mais presente: sua poesia busca se aproximar do que existe de mais vivo, tornando-se um dos aspectos luminosos de Há um mar no fundo de cada sonho.

. . . . .

 

[1] MELLO, Ramon. Control+Alt+Del. Vinis mofados. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009. Coleção Língua Real, p. 87.

[2] Idem. Poemas tirados de notícias de jornal. Posfácio de Eduardo Jardim. Rio de Janeiro: Móbile Editorial, 2012. p. 7.

[3] Ibidem, p. 11.

[4] Em trabalho apresentado originalmente como Conferência Anual Robert Hertz, organizada pela Association pour la Recherche en Anthropologie Sociale em 1997 e posteriormente integrando o livro Cultura com aspas, Manuela Carneiro da Cunha propõe que, em nossos dias, “um outro exemplo [de xamanismo] estaria nos grupos urbanos de tipo new age. O crescimento do xamanismo pode se manifestar, assim, no interior de certos grupos indígenas, em movimentos milenaristas, mas também no meio urbano, na maioria das vezes [...] com técnicas heteróclitas que se autoproclamam tradicionais.” Cf. CUNHA, Manuela Carneiro da. Xamanismo e tradução: pontos de vista sobre a floresta amazônica. Cultura com aspas e outros ensaios. São Paulo: Cosac & Naify, 2009. Coleção Ensaios, p. 102-103.

[5] A poesia brasileira contemporânea tem manifestado um retorno à natureza. Nesse sentido, Ramon Nunes Mello segue caminho similar aos de versos de Alberto Pucheu, Cláudia Roquette-Pinto, Leonardo Fróes e Sylvio Fraga Neto, sem esquecer de Manoel de Barros, que faleceu em 2014. São poéticas que buscam particularizar uma relação entre poesia e natureza, entre técnica e espontaneidade.

[6] Ibidem, p. 21.

[7] MELLO, Ramon Nunes. O sentido de urgência: a necessidade de se conversar sobre o HVI. Site da revista Carta Capital. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html>. Consultado em: 4 de janeiro de 2016.

 

Por Danilo Rodrigues Melo e João Camillo Penna

Resumo: Este texto tem por objetivo traçar um panorama da literatura produzida no Brasil abordando o tema do HIV/AIDS, destacando a importância da obra de Herbert Daniel e Caio Fernando Abreu na desconstrução dos discursos sensacionalistas e folhetinescos construídos nos textos jornalísticas dos anos 1980 e 90, bem como o ressurgimento, nos últimos anos, de uma literatura sobre o HIV/AIDS, como reação ao emudecimento imposto por setores conservadores a partir da introdução dos medicamentos antirretrovirais, e que busca se desvencilhar de imagens datadas da doença, retratando o que significa, hoje, descobrir-se soropositivo.

Palavras-chave: HIV/AIDS; epidemia; literatura pós-coquetel; sobrevivência.

Abstract: The objective of this text is to present an overview of the literature produced in Brazil regarding HIV/AIDS, stressing the importance of the works produced by Herbert Daniel and Caio Fernando Abreu for the deconstruction of the sensationalist speeches arising from journalistic texts in the 80’s and 90’s, as well as the resurgence, in the last years, of an HIV/AIDS literature, as a reaction to the silencing imposed by conservative sectors with the introduction of the antiretroviral therapy (ART), seeking to depart from dated images of the disease and portraying what means to be HIV seropositive today.

Keywords: HIV/AIDS; epidemics; post-ART literature; survival.

 

INTRODUÇÃO: COMO SOBREVIVER NUMA EPIDEMIA DISCURSIVA[1]


Desde que os primeiros casos de AIDS começaram a ser noticiados no início dos anos 1980, surgiu uma corrente literária que veio a ser conhecida como “literatura da AIDS”. De um ponto de vista acadêmico, poderia haver a impressão de que este seria um novo gênero literário. Entretanto, quando analisamos esses textos, fica claro que envolviam uma gama muito ampla e diversa de estilos, gêneros e propósitos. Dito de outra forma, não havia unidade estilística clara que conectasse tais obras. Como bem coloca Marcelo Secron Bessa (2002, p. 9), o principal ponto em comum entre elas era que todas abordavam, sob um viés explícito ou implícito, o tema da AIDS.
No Brasil, o crescente número de casos de AIDS nos anos 80 revelou aos poucos que a situação ia muito além de uma epidemia sob um ponto de vista médico-científico. Para usar a expressão de Bessa, a AIDS deu origem a uma “epidemia discursiva” (1997, p. 19).


Aqui, como também no exterior, um ponto chave para entendermos essa “epidemia discursiva” pode ser encontrado nos textos jornalísticos, que reportavam em tons folhetinescos, de forma sensacionalista e muitas vezes preconceituosa, os casos de AIDS. Até o ponto em que Herbert Daniel chegou a afirmar que “ninguém poderá escrever a história da doença no Brasil sem recorrer ao noticiário da imprensa” (Daniel apud Bessa, 2002, p. 21).

Naquele momento, não se sabia as causas da doença, que por longo período foi referenciada como “câncer gay”, havendo muita especulação sobre a sua origem. Mesmo quando as notícias da mídia eram aparentemente envoltas numa roupagem científica, havia claros elementos melodramáticos e preconceituosos: falava-se em peste homossexual, vírus produzido em laboratório, em guerra bacteriológica entre potências mundiais (estávamos ainda na guerra fria), doença misteriosa da África, sangue, saunas gays e darkrooms, promiscuidade, sexo anal, oral e grupal, drogas injetáveis e inaláveis (p. 23), dentre muitos elementos que povoaram o imaginário popular da época.

 

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Jornal Notícias Populares de 12 de junho de 1983


Essas matérias jornalísticas exerceram influência sobre textos literários que abordaram a AIDS, tendo contribuído para a formação de um público fiel dessas narrativas melodramáticas e sensacionalistas. Tais textos contribuíram para instaurar uma onda de pânico sexual e preconceito no Brasil e deram ao público as primeiras histórias e faces dos “doentes de AIDS”, trazendo imagens chocantes de indivíduos à beira da morte, que ajudaram a construir o estereótipo do doente de AIDS, mais tarde personificado na figura de Cazuza na capa da Revista Veja de 26 de abril de 1989.

Essas matérias jornalísticas exerceram influência sobre textos literários que abordaram a AIDS, tendo contribuído para a formação de um público fiel dessas narrativas melodramáticas e sensacionalistas. Tais textos contribuíram para instaurar uma onda de pânico sexual e preconceito no Brasil e deram ao público as primeiras histórias e faces dos “doentes de AIDS”, trazendo imagens chocantes de indivíduos à beira da morte, que ajudaram a construir o estereótipo do doente de AIDS, mais tarde personificado na figura de Cazuza na capa da Revista Veja de 26 de abril de 1989.

A REAÇÃO LITERÁRIA


Em meio a essa proliferação de representações midiáticas da doença, aos poucos começou a surgir uma produção literária relacionada à AIDS que se opunha à visão do discurso dominante. Uma das primeiras vozes da doença no Brasil foi Herbert Daniel, um importante militante de esquerda e precursor no país da defesa dos direitos LGBT. Daniel foi um dos primeiros autores a tratar do tema num ensaio publicado ainda em 1983, intitulado “A Síndrome do Preconceito”. Já nesse momento, Daniel deixou claro seu descontentamento com a forma pela qual a mídia tratava a epidemia da AIDS, buscando em seus textos se contrapor enfaticamente aos estereótipos amplamente difundidos.


Daniel se insurgiu contra o uso do termo aidético, sempre empregado de forma pejorativa e condenatória. Sobre o tema, ele disse certa vez: “(…) quando se tem AIDS, dizem as más e poderosas línguas que a gente é ‘aidético’. (…) Eu, por mim, descobri que não sou ‘aidético’. Continuo sendo eu mesmo. Estou com AIDS” (Daniel apud Bessa, 2002, p. 71). Ao seu descolar da personagem criada pela mídia, e ao reforçar uma condição transitória e instável, Daniel deixa claro seu desejo de se contrapor ao discurso dominante e tomar as rédeas da sua própria narrativa.


Daniel é autor, ainda, do romance Alegres e Irresponsáveis Abacaxis Americanos (1987), um dos primeiros a ter a AIDS como tema. Embora tenha inicialmente optado pela ficção, Daniel se afastou dela após tomar conhecimento de sua soropositividade, passando a buscar uma produção mais ensaística e não-ficcional. Daniel passou a priorizar, então, uma linguagem mais direta e informativa, por vezes pedagógica, com o objetivo de desmistificar a doença e combater a visão preconceituosa difundida pela mídia.


Importante destacar, ademais, que Daniel, além de participar da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), foi um dos fundadores do Grupo Pela Valorização, Integração e Dignidade do Doente de AIDS (Grupo Pela VIDDA) (p. 86). A ideia foi criar um grupo no qual as pessoas com AIDS não fossem apenas destinatários de um serviço, mas sim forças ativas nas decisões e ações a elas relacionadas, o que estava em consonância com a filosofia adotada em seus escritos.


Além de Daniel, falar desse momento da literatura da AIDS no Brasil é impossível sem mencionar Caio Fernando Abreu. Caio foi um dos primeiros autores brasileiros a citar a palavra AIDS em sua obra, na novela “Pela noite”, incluída no livro Triângulo das águas, de 1983, mesmo ano em que foi diagnosticado o primeiro caso da doença no Brasil.


Na obra de Caio, é recorrente a ideia de dificuldade ou mesmo impossibilidade de consumação da realização amorosa. Para o autor, a AIDS teve um papel importante em estabelecer esse contexto de paranoia sexual, como demonstrava, perplexo, em 1985:


Não quero falar de podres poderes. Há coisas mais graves no ar. São Paulo atualmente é uma cidade tomada pela paranoia da AIDS. Pelo menos na faixa de gente-como-a-gente: essa parcela mínima da população que não só come e mora (coisa rara), como ainda por cima lê, vai ao cinema, essas coisas. Conheço pessoas que não se tocam mais. O que é que se faz quando aquilo que era possibilidade de prazer – o toque, o beijo, o mergulho no corpo alheio capaz de nos aliviar da sensação de finitude e incomunicabilidade – começa a se tornar possibilidade de horror? Quando amor vira risco de contaminação (Abreu apud Bessa, 2002, p. 120).


É nesse contexto que Caio entendia a doença como uma dupla epidemia: a “AIDS do corpo” e a “AIDS psicológica”. Esta última é evidenciada pela onda de paranoia, preconceito e isolamento que foi causada pela doença física. Por assim dizer, a AIDS representou o momento em que, nas palavras do autor, “o amor vira risco de contaminação”, o que Bessa bem qualificou como um “estado de sítio afetivo-sexual” (p. 120). Como decorrência, é possível notar na sua obra um claro tom de desesperança e pessimismo em relação à realização amorosa, adiada por prazo incerto pela epidemia, bem como uma nostalgia pela época em que o prazer sexual não era visto como perigo de vida.

Na novela “Pela noite”, por exemplo, dois homens se encontram na noite paulistana e acabam no apartamento de um deles, onde passam longas horas conversando. Não revelam para o outro seu nome verdadeiro, assumindo pseudônimos: Pérsio e Santiago. Ao mesmo tempo que a conversa deles mostra um claro jogo de sedução, também transparece uma inquietação em relação ao sexo, reveladora de um contexto em que se aproximar do outro se torna perigoso, representando, até mesmo, um risco de vida.

Ao final da novela, contudo, ainda parece haver algum resquício de esperança para o desenlace amoroso, já que, ao final, Pérsio e Santiago se libertam de seus codinomes inventados, tornando-se mais abertos a uma aproximação, driblando a onda de paranoia instalada com o advento da epidemia:


– Resolveu aceitar aquele chá, Santiago??– Eu não me chamo Santiago – ele disse.?Não afastou o corpo para que o outro entrasse. Mas ele entrou. Fechou a porta às suas costas. Estendeu as duas mãos. Tocou-o nos ombros. De frente.?– Eu também não me chamo Pérsio. Portanto não nos conhecemos. O que é que você quer??Ele sorriu. Estendeu as mãos, tocou-o também. Vontade de pedir silêncio. Porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo:?– Quero ficar com você.?Provaram um do outro no colo da manhã.?E viram que isso era bom (2012, p. 216).

A temática da AIDS continuou surgindo na obra ficcional de Caio produzida após a novela “Pela noite”, com destaque para Os dragões não conhecem o paraíso, coletânea de contos publicada em 1988, e seu único romance, Onde andará Dulce Veiga?, de 1990.

É interessante notar que, apesar de a temática da AIDS estar presente em tais obras, a sua produção literária é marcada por poucas menções expressas às siglas HIV e AIDS, que quase sempre aparecem de forma elíptica e sugerida. Tal recurso, como defende Bessa (p. 115), consistia numa forma de conferir à doença novas percepções e imagens, afastando-se dos estereótipos e preconceitos então correntes.

Esse recurso à elipse pode ser encontrado nas “Cartas para além dos muros”. Essa série de quatro crônicas em forma epistolar foi escrita durante sua internação no hospital de infectologia Emilio Ribas, situado na capital paulista, e publicada no jornal O Estado de São Paulo entre 1994 e 1995. Foi a partir delas que Caio tornou pública a sua soropositividade, e buscou, pelo gênero epistolar, uma comunicação mais direta com seus leitores. Não significa dizer, contudo, que há assertividade e clareza nas cartas, que se valem de linguagem velada e cifrada para atingir novas formas de falar sobra a AIDS, como deixa claro o início da primeira delas:


“Alguma coisa aconteceu comigo. Alguma coisa tão estranha que não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Quando souber finalmente o que foi, essa coisa estranha, saberei também esse jeito. Então serei claro, prometo. Para você, para mim mesmo. Como sempre tentei ser. Mas por enquanto, e por favor, tente entender o que tento dizer” (1996, p. 102).


Caio só deixa de lado esse recurso à elipse na “Última carta para além dos muros” (que, na verdade, é a terceira epístola). Nesta, Caio adota um tom mais confessional, colocando de forma expressa a sua sorologia, e, distanciando-se da abordagem sensacionalista e preconceituosa existente na época, assume a narrativa da sua condição de sujeito assumidamente homossexual e soropositivo.


Outras obras que têm o HIV/AIDS como tema publicadas no Brasil nesse período incluem Risco de vida, de Alberto Guzik (1995), A doença, uma experiência, de Jean-Claude Bernardet (1996) e Depois daquela viagem, de Valéria Polizzi (1997).


O livro de Polizzi teve um forte impacto na época de seu lançamento. Em 1997, a AIDS no Brasil passava por uma mudança do perfil epidemiológico, com estatísticas que revelavam a crescente infecção por mulheres e heterossexuais (p. 325). O livro de Polizzi foi importante para desmistificar, ainda que parcialmente e de forma limitada, a ideia da AIDS como uma doença circunscrita aos gays. Seu livro, assumidamente autobiográfico, teve grande repercussão num contexto de campanhas de prevenção, sendo inclusive adotado como paradidático em colégios do ensino básico e médio (p. 326), e expandiu a discussão sobre o tema no Brasil para setores da sociedade que ainda não tinham se aproximado da questão.

A LITERATURA PÓS-COQUETEL


Por volta da época de lançamento de Depois daquela viagem, mudanças importantes no cenário da epidemia estavam ocorrendo. Em 1997, já havia começado a ser implementado o coquetel antirretroviral, que conferiu aos doentes de AIDS um tratamento eficaz e a possibilidade de sobrevivência. Aos poucos, a AIDS e a sua percepção começou a se modificar, passando de uma sentença de morte a uma doença crônica, que se não pode, ainda, ser curada, na maioria dos casos pode ser mantida sob controle.


Paradoxalmente, a partir desse momento, as discussões públicas sobre AIDS começam a diminuir, encaminhando-se para a periferia do discurso. As notícias, antes constantes e numerosas, se tornam esparsas na mídia, pondo fim à espetacularização das histórias dos soropositivos iniciada ainda nos anos 1980. De maneira similar, as obras literárias que abordam a AIDS diretamente começam a se tornar cada vez mais raras.


Uma hipótese é que o controle da doença proporcionado pelo coquetel antirretroviral poderia ter dado a ideia de que o HIV não seria mais um problema digno de atenção. Trata-se de uma visão muito questionável, uma vez que o referido controle é circunscrito àqueles que têm acesso e aderem ao tratamento antirretroviral, o que infelizmente está longe de ser a totalidade dos casos. Não por coincidência, a mídia começa a se afastar do tema, e as campanhas de prevenção, antes diversas e ousadas, tornam-se cada vez mais tímidas, o que pode ser, em parte, explicado pelo lobby conservador e do fundamentalismo religioso exercido com cada vez mais força na esfera política.


Nesse contexto de desaparecimento de esforços governamentais e campanhas de conscientização, três situações bem demonstram esse emudecimento forçado. Em 2011, houve a suspensão da divulgação de material educativo para as escolas, parte do Programa Brasil Sem Homofobia (divulgado pela imprensa como kit anti-homofobia ou kit gay); em 2012, foi cancelada a campanha de prevenção de carnaval voltada ao público de jovens gays; e em 2013, vetou-se a campanha voltada a profissionais do sexo, que buscava unir prevenção com autoestima na prostituição (Seffner e Parker, 2016, p. 29).


É diante desse cenário que as estatísticas mais recentes divulgadas no Boletim Epidemiológico HIV/AIDS-2016 do Ministério da Saúde revelam que a infecção entre homens jovens de 15 e 19 anos triplicou, e dobrou entre aqueles de 20 a 24 anos, entre 2006 e 2015, dentre outros dados alarmantes.

 

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Taxa de detecção de aids (/100 mil habitantes) em homens segundo faixa etária e sexo. Brasil, 2006 e 2015. Fonte: Boletim epidemiológico HIV/AIDS-2016

 

Essa situação tem levado, nos últimos anos, a uma reação da sociedade a esse novo levante conservador, que tem se tornado cada vez mais intenso, com atitudes que visam a promover uma discussão atual e contemporânea sobre o HIV/AIDS. Colocado de outro modo, a imposição de um emudecimento discursivo, em contraste com a epidemia discursiva que se verificou nos anos 1980 e 90, tem gerado um ressurgimento da discussão sobre o HIV/AIDS. As repercussões são sentidas também no campo da literatura, o que se revela pelo aparecimento de uma nova geração de autores que tratam do tema, em sua maioria jovens. É essa literatura que vem sendo chamada de “pós-coquetel” (Sousa, 2015).


Além dos recentes dados que mostram aumentos nos níveis de infecção e o desaparecimento de campanhas de conscientização imposto por setores conservadores, um dos motivos que pode ser identificado para isso é que o discurso criado nos anos 1980 sobre o HIV/AIDS, muito marcado pela questão da morte, pela conexão com a homossexualidade e a promiscuidade, e pelo reforço de estereótipos através de, por exemplo, imagens como a foto de Cazuza à beira da morte, ainda é muito presente nos dias atuais. Apesar de todas as evoluções da doença, da constatação de que o vírus atinge a todos independentemente de orientação sexual e da introdução do coquetel antirretroviral, esse discurso preconceituoso e nocivo ainda é dominante no país.


Nesse contexto, nos últimos anos há alguns exemplos marcantes de livros publicados que abordam a questão do HIV de uma forma moderna e contemporânea. Buscam trazer a questão para os dias atuais e se desvencilhar de imagens já datadas da doença. Um exemplo desse contexto são alguns livros que têm sua origem numa forma de comunicação fruto das evoluções tecnológicas das últimas décadas: os blogs.

Os livros de Rafael Bolacha, Uma vida positiva (2012), e de Gabriel Abreu, pseudônimo de Salvador Corrêa, O segundo armário: diário de um jovem soropositivo (2016), são exemplares desse caso. Ambos têm sua origem em blogs publicados na internet, iniciados imediatamente ou logo após a descoberta da soropositividade por seus autores, e possuem um viés assumidamente autobiográfico. Os relatos são valiosos para se tentar entender o que significa no Brasil de hoje se descobrir soropositivo.


Uma questão que atravessa esses relatos é a confrontação inicial com as imagens e visões do HIV/AIDS dos anos 1980 e 90, que, como venho afirmando, ainda é muito forte. O medo da morte e o sentimento de culpa, que são marcas do discurso inicial da AIDS, atravessam ainda hoje as vidas de quem se descobre soropositivo e representam um obstáculo importante a ser superado.


As questões que perpassam esses relatos são as mais diversas: o confronto e a desvinculação dos estereótipos e imagens da doença, o relacionamento afetivo e sexual após o diagnóstico, o medo do preconceito, como contar aos familiares, a busca pelo tratamento adequado, a relação com os médicos, que nem sempre é fácil, os efeitos colaterais dos remédios, a espiritualidade, a autodescoberta, dentre outros.


Tais questões revelam uma mudança de paradigma em relação à doença, também presente na literatura pós-coquetel. O foco deixa de ser a iminência da morte e um inevitável senso de urgência e imediatismo, e passa a ser como encarar a vida com HIV, em suas mais diferentes facetas. O coquetel antirretroviral, que representou a possibilidade de sobrevivência e de construção de um porvir com o vírus, torna-se uma presença marcante nos textos, que passam a se debruçar em planos para o futuro, o que muitas vezes era impensável nos anos 1980 e 90.


Outro exemplo marcante dessa literatura é o livro de poesia de Ramon Nunes Mello, Há um mar no fundo de cada sonho (2016). Ramon tornou pública a sua soropositividade em artigo publicado na coluna de Jean Wyllys na Carta Capital no Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, em 2015, intitulado “O sentido de urgência: a necessidade de se conversar sobre o HIV”.


Nesse artigo, fortemente inserido num contexto que o autor descreve como “viver de forma política”, ele fala sobre a importância de levantar a voz contra visões preconceituosas e retrógradas sobre o HIV, reconhecendo que a grande cura da AIDS é o combate ao preconceito. Ramon reconhece a luta daqueles que vieram antes dele, inserindo-se na tradição daqueles que chama de seus “irmãos de luta”, dentre os quais Cazuza, Herbert Daniel, Caio Fernando Abreu, o sociólogo e ativista Herbert de Souza (Betinho) e o poeta português Al Berto.


Nesse intento, nenhuma arma é mais poderosa do que a linguagem, como Ramon coloca em seu poema “diálogo com william s. burroughs”:

 

ser?

extraplanetário

?eu sou o outro você


in lak’ech ale k’in

?transformo

objeto em sujeito

a linguagem? o verdadeiro ?vírus

 

(2016, p. 68)

 

Se a linguagem é o vírus, como afirma Ramon, nada mais importante do que tomar a linguagem para si, tirando o seu monopólio dos institutos de saúde, do governo e da grande mídia, permitindo que novos significados sejam conferidos ao HIV, e dessa forma subvertendo e desconstruindo o discurso dominante, numa atitude de desconstrução de traços marcantemente queer.

Em seu livro, Ramon nos convida a um mergulho sem proteção na sua lírica, marcada por uma jornada de autocompreensão, como ele coloca no poema “kundalini”[2] (2016, p. 19), de forte espiritualidade, que pulsa ao longo das páginas, de estreitamento da relação com a natureza, de amor e de contemplação. No poema “luz”, Ramon fala sobre essa jornada:

 

quando a saúde é um grito ao sol

?tudo é possível?

até mesmo vencer o medo que silenciosamente destrói minhas defesas

enxergar apenas um filete colorido

?guia de passos?

tortuosos
existir é um grito mudo e constante

?aprende-se aos tombos

?a ser grato por tudo

?o que dói

(2016, p. 58)

 

É importante mencionar, ainda, outras duas obras recentes relevantes que abordam a questão do HIV nesse momento pós-coquetel. A primeira é o romance Mamãe me adora (2012), do autor Luís Capucho. Capucho é também cantor e compositor, e publicou outros dois romances: Rato (2007), e o seu transgressor romance de estreia Cinema Orly (1999).


Em Mamãe me adora, que tem toques autobiográficos, o narrador, soropositivo como o autor, narra uma viagem que fez com a sua mãe à Aparecida do Norte. Numa certa passagem, ele fala sobre a presença marcante dos medicamentos na sua rotina e na sua vida, e da relação de amor e ódio que trava com eles:


“Desde que comecei a tomar os terríveis remédios do coquetel para Aids, ouço dizer que a tecnologia médica é rápida, que logo surgirão remédios melhores e tudo, mas engulo, todos os dias, nos mesmos horários, há anos, essas ratazanas nojentas.?E, desde então, tenho sido terrivelmente domesticado por elas, por seus horários.?É certo que estou aproveitando a liberdade da viagem sem tomá-los, mas não saberia mais estar fora de sua disciplina, fora de sua grade.?Não tenho medo do vírus HIV.?Tenho medo é de não saber administrar o meu tempo e medo de me perder em sua grandeza.?Os remédios deram-me determinação. Através deles, fragilizado, determino meus dias, o tempo, meu cotidiano. E são bons” (2012, p. 80).


Capucho explora em sua obra a centralidade e o destaque das medicações na vida de um soropositivo, que parece ser uma marca da literatura pós-coquetel. O narrador afasta o medo do vírus, e levanta o medo da domesticação e controle do tempo imposto pelos medicamentos, dos quais não pode se libertar inteiramente. Não é a morte física que perpassa as preocupações do narrador, mas sim a morte da autonomia, de um certo controle do corpo imposto pelos rígidos e inafastáveis horários dos antirretrovirais.


Outra questão importante dessa literatura do HIV/AIDS mais recente são os relacionamentos sorodiscordantes. Um autor também jovem, Felipe Barenco, escreveu sobre essa questão em seu romance de estreia, intitulado Fake (2014). De acordo com o que consta na própria orelha do romance, o livro faz parte da literatura Young Adult, voltada para adolescentes e jovens adultos. O romance de Barenco fala com muita leveza e bom humor sobre questões relevantes, como sair do armário e o processo de descoberta da sexualidade. Seu romance, escrito numa linguagem acessível e moderna, é importante por trazer a discussão do HIV para as gerações mais novas, que não conviveram com o período da epidemia dos anos 1980 e 90.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


O tortuoso caminho trilhado no âmbito da epidemia do HIV/AIDS desde os anos 1980 sempre passou, de uma forma ou de outra, pelas diferentes formas de apropriação da linguagem. No seu início, o total desconhecimento sobre a doença e suas causas, o desejo de apontar culpados e o imenso número de mortes, que tornava impossível ignorar a questão, levou ao que se chamou de “epidemia discursiva”. Cristalizou-se, a partir da predominância de uma forma de linguagem pretensamente científica, sensacionalista e folhetinesca, estigmas e estereótipos ainda hoje muito fortes.


Com a introdução dos medicamentos antirretrovirais, contudo, veio não apenas a possibilidade de sobrevivência, mas também a reação dos setores mais conservadores da sociedade, cada vez mais representados na esfera governamental, com a imposição do emudecimento das campanhas de conscientização e da discussão ampla e aberta sobre o vírus e seus riscos, possivelmente contribuindo para os dados alarmantes refletidos nas estatísticas mais recentes.


Em um momento como em outro, a literatura se viu num cenário de confrontação com discursos retrógrados. Paradoxalmente, apesar das diversas mudanças atravessadas pela epidemia, com destaque para a introdução do coquetel antirretroviral na segunda metade dos anos 1990, muitas das questões iniciais se mantiveram. Se Herbert Daniel se insurgia contra a forma pela qual os doentes de AIDS eram retratados, e Caio Fernando Abreu falava da “paranoia sexual” e buscava fugir dos estigmas construídos em torno do vírus, as obras mais atuais revelam que essas visões datadas ainda hoje impõem sua força.


Por outro lado, questões que nos anos 1980 e 90 eram presentes, porém eclipsadas pelo espectro da morte e pela improbabilidade de um futuro de longo prazo, passaram a ser mais destacadas no âmbito da literatura pós-coquetel. Desse modo, a vida com o vírus do HIV, e não mais a morte por AIDS, passa a ser o enfoque dessas obras, que passam a se debruçar sobre questões como a presença e importância dos medicamentos antirretrovirais nas vidas dos soropositivos, os relacionamentos sorodiscordantes, a autodescoberta e a espiritualidade, dentre tantas outras.


Nessa busca por novas abordagens e por conferir novos significados ao HIV, a literatura não tem sido o único veículo utilizado, contando também com o auxílio de outras formas de expressão, como, por exemplo, os blogs e os canais do Youtube. Pode-se citar, nesse contexto, o canal “Chá dos 5”, do qual participa Rafael Bolacha, que já produziu alguns vídeos sobre o HIV, e o “HDiário”, de Gabriel Comicholi, que se descobriu soropositivo e começou a relatar a sua experiência em vídeos postados em seu canal. Tanto as obras literárias como os testemunhos nos blogs e os canais do Youtube são exemplos de ressignificação dessas experiências e de desconstrução do discurso dominante sobre o HIV/AIDS. Assim, com a apropriação da linguagem, abre-se a possibilidade de modificar o próprio vírus.

 

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* Danilo Rodrigues Melo é mestrando em Literatura Comparada, pelo Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da UFRJ, com bacharelado em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (2012).

** João Camillo Penna é professor da UFRJ, vinculado ao Departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras, com pós-doutorados no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC-UFRJ; 2002) e na Universidade Paris Diderot-Paris VII (2012). É autor, dentre outros, do livro Escritos da sobrevivência (7Letras, 2013).
 
Referências


ABREU, Caio Fernando. Triângulo das águas. Porto Alegre: L&PM, 2012.
ABREU, Caio Fernando. Pequenas epifanias. Org. Luiz Arthur Nunes. Porto Alegre: Sulina, 1996.
ABREU, Gabriel de Souza. O segundo armário: diário de um jovem soropositivo. Rio de Janeiro: Autografia, 2016.
BARENCO, Felipe. Fake. Petrópolis: Umô – Usina de Criação, 2014.
BESSA, Marcelo Secron. Histórias positivas: a literatura (des)construindo a AIDS. Rio de Janeiro: Record, 1997.
BESSA, Marcelo Secron. Os perigosos: autobiografias & AIDS. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.
BOLACHA, Rafael. Uma vida positiva. Rio de Janeiro: Cidade Viva, 2012.
BRASIL. Boletim epidemiológico HIV/AIDS-2016. Brasília: Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde, Ano V nº 1, 2016. Disponível em: <http://www.aids.gov.br/sites/default/files/anexos/publicacao/2016/59291/?boletim_2016_1_pdf_16375.pdf>. Acesso em: 18/12/2016.
CAPUCHO, Luís. Mamãe me adora. Rio de Janeiro: Vermelho Marinho, 2012.
DANIEL, Herbert; MÍCCOLIS, Leila. Jacarés e lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade. Rio de Janeiro: Achiamé, 1983.
MELLO, Ramon Nunes. Há um mar no fundo de cada sonho. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2016.
MELLO, Ramon Nunes. O sentido da urgência: a necessidade de se conversar sobre o vírus HIV. Coluna de Jean Wyllys no site da revista Carta Capital, 1º de dezembro de 2015. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-sentido-de-urgencia-a-necessidade-de-se-conversar-sobre-o-hiv-9676.html>. Acesso em: 18/12/2016.
POLIZZI, Valéria Piassa. Depois daquela viagem: diário de bordo de uma jovem que aprendeu a viver com AIDS. São Paulo: Ática, 1997.
SEFFNER, Fernando; PARKER, Richard. A neoliberalização da prevenção do HIV e a resposta brasileira à AIDS. In: Mito vs realidade: sobre a resposta brasileira à epidemia de HIV e AIDS em 2016. Rio de Janeiro, Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), julho de 2016. Disponível em: <http://abiaids.org.br/wp-content/uploads/2016/07/Mito-vs-Realidade_HIV-e-AIDS_BRASIL2016.pdf>. Acesso em: 18/12/2016.
SOUSA, Francisco das Chagas Alexandre Nunes de. Literatura e cinema pós-coquetel: da epidemia discursiva aos silenciamentos nas narrativas. Minicurso no II Seminário Internacional Desfazendo Gênero, realizado na Universidade Federal da Bahia, em 6 de setembro de 2015.
 
Notas


[1] Agradecimento especial a Alexandre Nunes de Sousa (UFCA), de quem ouvi pela primeira vez a expressão “literatura pós-coquetel” num ambiente acadêmico, e cujas considerações sobre o tema no II Desfazendo Gênero (2015) serviram de inspiração para esse texto.
[2] “(…) serpente / das águas divinas / nagayana / unifica as energias / dos corpos nessa jornada de / autocompreensão”

Publicado na Revista Z Cultural- Revista do Programa Avançado de Cultura Contemporânea: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/literatura-e-hivaids-reflexoes-sobre-a-era-pos-coquetel/

Poetas de várias gerações foram convidados a compor poemas sobre ou a partir da situação cotidiana vivida por aqueles que são soropositivos

por Katia Maciel

A morte de toda forma só existe em vida, se avizinha de nós quando vivemos a perda de alguém ou quando estamos doentes. Aqueles que contraíram o vírus da aids no início da pandemia recebiam o diagnóstico como uma sentença de morte.

o tempo que tenho
começo a medir

é um fragmento do poema Dias Contados de Marília Garcia, uma entre os 95 poetas que escrevem sobre um dos temas mais urgentes hoje.
Se digo urgente é porque paira uma ameaça de suspensão do coquetel retroviral pelo futuro governo, até agora oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, o que implicaria em um retrocesso radical da política brasileira uma vez que foi pioneira na luta pela patente para a produção do medicamento de combate a doença.
Tente Entender O Que Tento Dizer, o título do livro publicado pela Bazar do Tempo e organizado pelo poeta Ramon Nunes Mello é retirado da Primeira Carta Para Além dos Muros, de Caio Fernando Abreu e aproxima os dois autores na produção crítica e poética a partir de uma subjetividade soropositiva.
Poetas de muitas dicções, de várias gerações, gêneros, soropositivos ou não, foram convidados pelo organizador para participarem da coletânea na escrita de poemas inéditos sobre ou a partir da situação cotidiana vivida por aqueles que são soropositivos.
Os poemas reúnem assim, de modo surpreendente, o que se diz quando antes não se dizia nada. E não se trata de uma súmula do infortúnio, mas de experiências, percepções, sensações, estratégias e humores diante de um mundo em contágio.
Ramon insiste que a existência dos coquetéis permitiu que a linguagem fosse o verdadeiro vírus de uma vida que continua, que insiste nas quebradas com usos novos das palavras, diante de uma doença que enfrenta os muros da memória negativa da vergonha e do medo.
Estar doente é o estado de personagens clássicos da literatura como Ivan Ilitch de Liev Tolstói ou o Doente imaginário de Molière, a escrita que confronta a morte talvez seja uma das maiores pulsões de vida.


Tente Entender O Que Tento Dizer – Poesia + HIV, Ramon Nunes Mello (org.), Bazar do Tempo, 256 págs., R$ 48, https://bazardotempo.com.br/

Por Jessica Paula, Agência Aids

Tente Entender o Que Tento Dizer é o título da coletânea de poemas em torno do tema HIV/aids, organizado pelo poeta Ramon Nunes Mello. O lançamento da obra aconteceu após um bate-papo na tarde dessa quarta-feira (16), durante a mostra Arte e Diversidade Todos os Gêneros no Itaú Cultural, em São Paulo. São 96 poetas reunidos para falar sobre o vírus e suas diferentes perspectivas.
Segundo Ramón, o livro nasceu de uma inquietação em relação a linguagem que funciona como um verdadeiro vírus. “Há uma corrente de solidariedade, de afeto e amor, apesar do preconceito e estigma. Esse livro resume uma corrente de solidariedade. A verdadeira cura da aids é o combate ao preconceito. Aqui a gente combate o estigma através da linguagem, seja na escola, em casa, nos livros, na arte, no cinema, na performance, no teatro. É importante tratar das formas de expressão sobre HIV na vida, no cotidiano e na arte.”
“Quando peguei o diagnóstico em 2012, essas questões eram muito latentes. A primeira coisa que pensei foi ‘quero escrever sobre’.”, conta Ramon sobre a época em que começou a escrever poemas que “continham vírus nos versos”.
Em sua fala, o organizador da obra também ressaltou a questão do genocídio da população negra com aids, e disse que o vírus é uma questão que envolve a humanidade. “As pessoas conhecem algum familiar, amigo que tem o vírus, ou tiveram uma relação com alguém que revelou ser infectado. O livro perpassa por essas histórias.”

 

Literatura Pós-Coquetel


Ramón explica que o fato de as pessoas não morrerem mais como acontecia no início da epidemia, graças ao tratamento antirretroviral, fez com que escritores e poetas começassem a escrever não mais sobre morte, mas sobre a aids com uma perspectiva diferente de vida. Daí o nome para o divisor de águas: literatura pós-coquetel.
Alexandre Nunes de Sousa, responsável pela expressão, fez um resgate histórico colocando como essas questões têm sido retratadas. “A memória da aids e a produção discursiva sobre a doença também sofre influências de questões geopolíticas. Há menos acesso a essas estruturas nos países pobres, por exemplo. Além disso, trata-se de uma epidemia discursiva, onde o jornalismo tem papel fundamental para construir e a arte sempre atuou como um contra-discurso em relação ao que a mídia colocava sobre o que era HIV/aids”, explica.
“Na era pós-coquetel, é um desafio atravessar questões da vulnerabilidade de imigrantes, negros, trans. O livro trata inclusive de PrEP e PEP e tem o mérito de ser pioneiro em trazer essa temática novamente”, completa. Além disso, a publicação traz poetas como Kesley Rocha, por exemplo, um dos poucos poetas que tratam o HIV dentro do sistema penitenciário.

 

Literatura como referência


A poetiza transexual Amara Moira falou a respeito dos momentos antes e pós literatura sobre LGBT e aids. “Minha forma de viver, de descobrir minha sexualidade era carregada de estigma. Era fingir que ia dormir e sair à pé, escondido para uma balada LGBT, ter relações sexuais sem estabelecer vínculos porque não conseguia me aceitar como parte dessa sigla. Eu me sentia como se quisesse contrair HIV para não transar com mais ninguém na vida. Os centros de referência em testagem e tratamento eram os únicos lugares onde eu poderia falar sobre o assunto, mas os profissionais eram despreparados”, desabafa. 
Amara conta que estar em bate-papo na internet, nos banheirões, em dark rooms, era a maneira que ela enxergava de participar do universo LGBT e do HIV/aids. Para ela, essa realidade só se transformou quando ingressou na universidade e começou a consumir literatura sobre os temas.

No entanto, a poetiza reforça que ainda há muito o que dizer sobre HIV. “As coisas que a gente vive, ouve, enfrenta. Tudo isso ainda não está nas palavras. Ainda falta uma literatura que fale e enfrente isso. As abordagens possíveis são diversas e infinitas.”
Quanto à resposta ao HIV, Ramon evidenciou a importância do papel da imprensa e das ONGs. “Temos que agradecer aos ativistas que vieram antes, que lutaram, pensaram e fizeram políticas públicas. A resposta da literatura pode ser mais efetiva, mas ela tem que dar mais perguntas do que respostas. No entanto acho que é possível dialogar mais, os escritores precisam perder o medo, sair do armário.”
 
Jéssica Paula (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.)

Escritor foi tudo que não se podia ser em sua época, e é saudado por novas gerações por sua coragem de ser. Cia das Letras lança conjunto de contos do autor, que completaria 70 anos nesta quarta-feira

Por Tom C. Avendaño, El País

Caio Fernando Abreu foi repetidamente o que não se podia ser. Gay e crítico da ditadura nos anos setenta e oitenta. Doente de aids nos anos noventa. Teve outros traços, e esses mencionados não são nem equiparáveis entre si nem estão unidos por um fio condutor, mas compartilham uma ideia central. Uma ideia que só foi ganhando força desde 1996, quando Caio morreu aos 47 anos e começou a ser interpretado e reinterpretado por várias gerações de jovens – quase sempre jovens – que se debruçaram sobre seus textos uma e outra vez e que lhe foram buscando um lugar entre nomes cada vez maiores da literatura brasileira do século XX. A ideia de que Caio Fernando Abreu foi o que foi, publicamente, obstinadamente, ostentosamente, mesmo que a sociedade não o deixasse ser assim.

Abreu voltou à atualidade nos últimos dias. Completam-se 70 anos de seu nascimento, em Santiago (Rio Grande do Sul), a chamada “terra dos poetas”. E a Companhia das Letras publica um compêndio de todos os seus contos, o formato em que Abreu mais brilhou e com o qual mais contribuiu à literatura brasileira. E nesse tempo a cultura geral evoluiu. Os mundos LGBTQI, o pop e crítico em relação à autoridade que ele representou já não são tão underground nem contraculturais como antes; ao mesmo tempo, o mundo vive obcecado com a individualidade e a identidade – e sobre isso a obra de Caio também é um manancial. Por isso, este é um momento tão fascinante e perigoso para falar da relevância atual deste homem magro, de cabelo escuro e olhar de quem sempre está pensando em algo, às vezes com óculos, jovem – quase sempre jovem; o qual em tempos de punk foi terno, queer em mundos militares e doente em épocas de euforia; o colunista, cronista, dramaturgo, contista, romancista e, cada dia mais, tesouro nacional Caio Fernando Abreu.

Primeiro o apropriado. Se em sua época seus maneirismos pop confundiram a crítica e a fizeram pensar que estava ante um artista menor, hoje se entende a envergadura política de suas obras. “Devido a todas as mudanças políticas que vivemos no Brasil, sobretudo após as passeatas de 2013, com mais e mais vozes no debate e com toda uma literatura que tem repensado a ditadura brasileira, um Caio mais interessante talvez esteja emergindo”, afirma Schneider Carpeggiani, editor da revista cultural Pernambuco e da editora Cesárea. “Estamos olhando para a relação da sua literatura com a ditadura, um trauma de geração que percorre seus livros até quando ele não é explicitado. Um trauma que é escrito algumas vezes por subtração. Vivemos um momento em que a literatura brasileira, por pura contingência, repensa sua relação com a ditadura. E essa política da época também nos faz olhar melhor, aceitar melhor, as nuances queer da sua literatura, as nuances bicha-louca e irônica da sua escrita”.

Também é analisado agora, anos depois de sua morte em decorrência da aids, o impacto que ele teve na cultura brasileira. Não só na literatura, mas também na vida de muitos de seus leitores. “Foi o primeiro escritor brasileiro que escreveu sobre o HIV”, recorda Ramon Nunes Mello, autor do livro de poemas Tente Entender O Que Tento Dizer, sobre sua experiência com o vírus. O título vem de uma crônica de Caio. “Descobrir que você tem HIV é algo muito difícil. O que descobri é que a linguagem é o verdadeiro vírus: falar da questão publicamente sem pudor é muito difícil. E busquei textos e o encontrei. Ele, que passou pela mesma coisa, mas quando não existia nada para se apoiar. Foi um pioneiro e ajudou muitos no processo de adaptação.”

Esse é outro aspecto que traz Caio Abreu de sua época à nossa com tanta facilidade. Sua capacidade de falar de si mesmo e deixar que sua biografia influísse em sua escrita, como faz tanta gente nas redes sociais. “Tem essa questão da autoficção; sua biografia permeia toda a sua obra”, afirma Nunes Mello. “E as crônicas em que descreve o Brasil, embora as tenha escrito nos anos oitenta, parecem escritas em 2018. Ele viveu em várias cidades, e os contos retratam essas viagens. Não tinha dinheiro. Mudava de casa, ganhava pouco. Refletia também sua força de espírito: ‘Vou viver de escrever, vou combater a ditadura, vou enfrentar a aids.”

“Caio é muito visceral, fala da angústia, do medo, do desespero”, afirma a editora Alice Sant’Anna, responsável pela publicação de seus contos na Companhia das Letras. “Ao longo dos anos, essa característica o marcou entre os leitores jovens. O contexto mudou, mas não a sua forma de falar a partir da contracultura. Ele continua sendo muito atual.”

E é aqui que se chega ao perigo. Sua adequação à era da identidade e das redes sociais pode solapar o lado complexo e obscuro de sua obra. “Recentemente, as redes sociais fizeram emergir um Caio Fernando Abreu mais fofinho, adocicado e típico das demandas desse tipo de plataforma – o que aconteceu também com nomes como Fernando Pessoa, Drummond, Clarice, autores que passam a impressão de estabelecer um diálogo direto com nosso cotidiano”, lamenta Carpeggiani. “Essa impressão acabou gerando até uma série de ‘fakes’ de Caio. Esses ‘fakes’ que trazem textos de autoajuda dizem muito da nossa necessidade em querer instrumentalizar tudo. Inclusive a literatura”.

Essa imagem distancia o verdadeiro conteúdo dos contos de Abreu. “Nos anos setenta, ele fez parte de uma geração que estava reformulando o formato do conto brasileiro, inserindo novas questões, novas formas de narrar Ele começou a carreira sob estigma do renovador”, resume Carpeggiani. “Nos anos oitenta, ele ganhava uma aura mais dark, que descrevia a ressaca do desbunde e a traumática transição democrática. Isso está presente em seu grande livro de contos da época, Morangos Mofados. Em seguida, sua (pioneira) relação pública com a aids se tornou essencial para guiar sua leitura, sobretudo com a repercussão da crônica Primeira Carta Para Além do Muro, na qual revela a doença”.

É justamente essa carta que contém a melhor prova dessa ideia que resta hoje de Caio de Abreu. A que o tempo não pôde mudar, assim como a sociedade tampouco o mudou. A que começa assim: “Olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem sempre que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa.

Por onde começar com Caio F. Abreu (T.C.A.)“

Caio foi um autor que teve resultados exemplares em todos os gêneros que exerceu, da crônica ao romance. Recomendo Onde andará Dulce Veiga, grande romance da virada entre as décadas de 80 e 90, que lança mão de uma linguagem camp para falar da barra-pesada de uma geração frustrada entre os difíceis anos de redemocratização, tanto no Brasil quanto na América Latina, e o pânico da AIDS. A busca inútil pela reclusa cantora Dulce Veiga só ressalta o desejo de uma geração por qualquer símbolo, ainda que vazio de significado”, explica Schneider Carpeggiani. “A busca por Dulce Veiga, em alguns momentos, me lembra a procura dos poetas mexicanos por Cesárea Tinajero, em Detetives selvagens, de Roberto Bolaño. Cesárea, assim como Dulce Veiga, outro signo vazio como salvação. Outro cartão-postal enviado do deserto. E para o deserto.??

Seu livro de contos Morangos mofados é um dos mais importantes da literatura brasileira da segunda metade do século 20. Por muito tempo, o caráter pop desses textos fez com que alguns críticos não o levassem muito a sério como o exímio narrador que é. E, ainda em se tratando do Caio contista, no livro Os dragões não conhecem o paraíso está um dos seus contos mais impressionantes, Linda, uma história horrível, que o equipara com os grandes da prosa contemporânea. Em Linda, uma história horrível há um reencontro de mãe e filho em que tudo acontece e nada acontece, tudo é dito e nada é dito. Medo, perdas e AIDS revelados por elipses, nos deixando na contramão.

 

*Publicado originalmente no El País Brasil

Literatura pós-coquetel: coletânea que reúne 96 poetas quer ressignificar o entendimento em relação ao vírus e se livrar do preconceito que só ajuda no aumento das infecções

Por Nathan Fernandes, revista Galileu

A evolução no tratamento do HIV não mudou apenas a vida das pessoas que vivem com o vírus. Mudou também a forma como ele é retratado na arte.

Afinal, apesar da importância do registro histórico, obras como o filme Clube de Compra de Dallas ou a novela Os Dias Eram Assim não representam mais a realidade da infecção — pelo menos não onde a população tem acesso ao tratamento, que é garantido por lei no Brasil.

Na literatura, se antigamente escritores como Caio Fernando Abreu e Herbert Danielrelatavam a experiência de quem fatalmente desenvolveria a aids, hoje — numa época em que pessoas que vivem com HIV têm praticamente a mesma expectativa de vida de quem não vive com o vírus — é preciso repensar a classificação que se dá à atual “literatura da aids”.
Foi pensando nisso que Alexandre Nunes de Sousa, professor de Comunicação e Cultura na Universidade Federal do Cariri, cunhou o termo “literatura pós-coquetel”, marcando assim os trabalhos feitos sob a nova perspectiva dos coquetéis que passaram a ser distribuídos a partir de 1996 — e que agora já foram substituídos por medicamentos como o Efavirenz e, mais recentemente, o Dolutegravir.
Na história da epidemia da aids, a linguagem sempre se mostrou uma ferramenta importante, seja pelas tintas da imprensa ou dos escritores. Afinal, por se tratar de uma doença que lida com estigmas e preconceitos, a forma como nos referimos a ela pode ser literalmente fatal em certos casos — termos que reforçam conceitos errados, como “aidético” ou “grupo de risco”, só atrasam ainda mais o fim da epidemia porque espalham desinformação. 

A linguagem é um vírus

Não à toa o escritor William Burroughs escreveu, em The Ticket That Exploded: “A linguagem é um vírus do espaço sideral”. Um conceito que foi apropriado pelo poeta fluminense Ramon Nunes Mello. “Eu descobri a frase do Burroughs depois de elaborar sobre essa questão de pensar e escrever sobre o HIV”, afirma Ramon.
“Quando recebi o diagnóstico [positivo para HIV], em 2012, eu sabia internamente que queria abordar isso de alguma forma no meu trabalho. Para mim, essa questão da linguagem como um vírus não se dá só na criação artística, mas de uma forma mais aberta. Porque eu entendo que quando a gente fala, seja de forma cotidiana, militante ou artística, a gente vai transformando essa significação que existe em torno do vírus, que é norteada pelo preconceito.”
Usando no título uma referência a Caio F., Ramon Mello lançou Tente Entender o que Tento Dizer (Ed. Bazar do Tempo), uma antologia que reúne 96 poetas e não poetas de diferentes sorologias, orientações sexuais, gêneros e raças.

Se toda grande poesia é uma visão de mundo, como disse o poeta inglês T.S. Eliot, então a obra organizada por Mello é uma janela aberta para um universo rico em temas e inquietações. Debruçados sobre o parapeito, conhecemos a variedade de concepções que um mesmo assunto (estigmatizado) pode ter.

Divididos entre linguagem, memória e corpo, os poetas refletem sobre a condição humana, como nos versos do ator Kako Aranciba: “cheio de vontade/ me vi morte/ mas o que se fez em mim/ na real era ocupação/ essa sim, repleta de natureza”; sobre confiança e trabalho sexual, como no poema da escritora e ativista trans Amara Moira: “Confia em mim, sou casado,/ doador de sangue e, por deus,/primeira trava com que eu/ saio é você…”; sobre lembranças de um tempo em que o vírus parecia ser outro ser, como nos versos da poeta Viviane Mosé: “Pouco depois ninguém mais/ Morria./ Mas para eles não deu tempo/ Pra eles não deu”.
Para Ramon, a poesia tem uma força que vai além da narrativa, já que trata da subjetividade. “A poesia nos coloca mais perguntas sobre a questão, então ela abre mais janelas em torno do tema”, explica. “ A poesia não encerra a coisa em si, ela nos traz questões e nos faz emergir dentro delas.”

O organizador afirma que não se pode confundir a antologia com um retrato atual sobre o tema: “Nem todo mundo que participou está atualizado como os militantes. Então, é mais um reflexo vivo de como as pessoas lidam com isso hoje, inclusive expondo sua própria ignorância.”

Ramon diz que a importância de uma obra como esta ultrapassa a ideia de preencher uma lacuna da literatura. “Mesmo que o acesso seja mais restrito do que um show, por exemplo, acho que a antologia ajuda a não restringir o debate. Ela traz o tema para todas as pessoas”, diz. “É uma proposta pretensiosa, mas assim a gente vai vivendo.”

https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/06/como-poesia-ajuda-na-resposta-epidemia-de-hivaids.html

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