Ramon Nunes Mello | pulicado originalmente no Boletim ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids) em janeiro/2019

 

O professor, sociólogo e crítico literário Antonio Candido em seu ensaio "O direito à literatura" defende a ideia de que a literatura tem de ser vista como um direito básico do ser humano, pois é fundamental para a formação do sujeito. Ele compreendia que os direitos humanos - acesso a saúde, alimentação, moradia, justiça, instrução, saúde, direito a religiosidade e as liberdades individuais - garantem a sobrevivência de vida, portanto a literatura também deveria ser ressaltada. Assim a humanização, adquirida através da linguagem literária, possibilitaria a vivência de realidades distintas. Ou seja, de acordo com Cândido, "a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob a pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato pode dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza”.

Um pensamento utópico, sem dúvida. Como ter acesso a literatura quando não temos acesso aos direitos básicos de cidadãos?

Quando resolvi organizar “Tente entender o que tento dizer: poesia + hiv / aids” já havia tido o prazer de ler ensaio inspirador de Antonio Candido, assim como outros textos ficcionais, ensaísticos, históricos e técnicos relacionados especificamente a vivência sobre o hiv/aids. Entre esses autores estavam Herbert Daniel, Caio Fernando Abreu, Betinho, Silviano Santiago, Alexandre Nunes de Sousa, Denilson Lopes, Eduardo Jardim, Marcelo Secron Bessa e João Silvério Trevisan - alguns abordando a questão de forma mais subjetiva do que outros. Essas trocas me fizerem entender como eu gostaria de atuar no ativismo do hiv/aids, através de um diálogo sobre o vírus/linguagem.

Acredito que a linguagem é o verdadeiro vírus, a forma como nos expressamos de forma escrita ou falada colabora sobre a ressignificação do que entendemos sobre o hiv/aids. E, assim, transformar a representação de que hiv = morte. Reconheço que na luta do hiv/aids deve-se pautar o genocídio que ocorre no Brasil hoje, principalmente no meio mais vulnerável - negra e os gays – e por isso dar voz a que mais sofre com a questão. E, em paralelo, pois as lutas são simultâneas e complementares, promover um diálogo entre soronegativos, soropositivos e sorointerrogativos para que visão sobre amor, sexo, vida, relação com os medicamentos, combate aos estigmas também seja parte da reconstrução do imaginário de viver com hiv//aids. Penso que, guardadas as proporções, a literatura, no meu caso a poesia, pode contribuir com a afirmação dessas subjetividades.

Palavras impõem limites e mudanças profundas, entretanto penso que, para romper com o tabu e o preconceito do hiv/aids, tanto na vida como na literatura, é necessário encarar essas siglas: hiv/aids. Então, é necessário pronunciá-las e escrevê-las, só assim podemos criar um novo imaginário diferente do estigma associado ao início da epidemia. Somente, assim, podemos ressignificar a ideia em torno do vírus. Não tenho a ilusão que a poesia vai ter um alcance ou uma força de transformação social capaz de alterar algo de forma tão direta no a ativismo de hiv/aids. Até porque não acredito que a poesia está em função de nada, muito menos de uma causa tão complexa como militância de hiv/aids. Entretanto, como dizia o poeta Roberto Piva, “a poesia pode não acabar com a guerra, mas, ao menos, evita que as pessoas deixem de sonhar”.

E em tempos de ódio e polaridade política, nesta era “pós-coquetel”, em que a resposta brasileira à epidemia de HIV/ AIDS, antes exemplo mundial, tem se enfraquecido diante do retrocesso conservador e persistência do preconceito, estigma e moralismo, tenho diversas: A literatura, sobretudo poética, como o próprio corpo do soropositivo, marcado pela terapia de antirretrovirais e seus efeitos, é assimilado pela linguagem poética e como esta contribui para narrar a própria história na perspectiva não da pesquisa biomédica e da saúde pública, mas dos “pacientes”? De que maneira a literatura ajuda a compreender o impacto do diagnóstico de soropositivo nas trajetórias de vida, bem como os significados de se relacionar afetivamente com as pessoas que vivem com o vírus? A temática do HIV/AIDS no campo das artes pode ser considerada como estratégia política de atuação e visibilidade?

Ainda não possuo respostas, muito menos uma receita de atuação. Após 36 anos do surgimento do HIV/AIDS, desde de sua descoberta em 1981, quando um candidato a presidência da república fascista – notadamente racista, homofóbico e misógino – declara que a causa do hiv/aids não é um problema dele (ou seja, não diz respeito a saúde pública como direito fundamental) é relevante lembrar as ideias de ativistas como Herbert de Daniel e Herbert de Souza, o Betinho – o primeiro dizia que “a solidariedade é a verdadeira vacina contra aids” e o segundo que “aids é sim um assunto político”.

Levando em consideração essa reflexão sobre a militância e a linguagem, afirmo que o hiv/aids é sim um assunto da micropolítica da existência e da macropolítica estrutural a qual nossa linguagem se subordina quase sempre e não ultrapassa os limites do senso comum tão perigosos em tempos atuais. Caminhos a passos lentos na efetivação de todas as fases dos direitos humanos, de primeira a terceira geração de avanços, dos direitos básicos a liberdade individual, a sua garantia de expressão coletiva, seja pelos grupos de autoafirmação identitária, como também avanços nas políticas sociais de saúde. Garantir direitos humanos é garantir a sucessiva e fundamental consciência de que a luta se faz no dia a dia, e nela nos humanizamos agindo sobre o pensar e pensando sobre o agir.


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