Foto: AMLB/FCRB

 

Poeta, romancista, contista e jornalista. Filha de Gualter Ferreira  e de Rosa Cancela Ferreira – ele mato-grossense e ela portuguesa e neta de francesa - Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira nasceu no dia 29 de outubro de 1905, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Órfã de mãe aos 8 anos, Adalgisa Nery desde a infância demonstrou forte sensibilidade poética. Em 1922, aos 16 anos, casou-se com o artista Ismael Nery (1900-1934), com quem teve sete filhos, todos homens, mas somente o mais velho, Ivan (1922 – 2003), e o caçula, Emmanuel (1931-2003), sobreviveram.

O primeiro casamento lhe proporcionou convívio com intelectuais como Álvaro Moreyra (1988-1964), Aníbal Machado (1894-1964), Antônio Bento (1902-1988), Graça Aranha (1868-1931), Jorge de Lima (1893-1953), Manuel Bandeira (1886-1968), Mario Pedrosa (1900-1981), Murilo Mendes (1901-1975) e Pedro Nava (1903-1984). Entre 1927 e 1929, Adalgisa e Ismael viveram na Europa e conheceram artistas de vanguarda como Villa-Lobos (1887-1959), Marc Chagall (1887-1985) e Juan Miró (1893-1983). Viúva em 1934, aos 29 anos, trabalhou na Caixa Econômica e depois no Conselho de Comércio Exterior do Itamaraty.

Incentivada por amigos como o poeta Murilo Mendes, publicou seu livro de estreia, Poemas, em 1937, com o editor Ruggero Pongetti (1900-1963). Colaborou com diversos jornais e revistas do Chile, Peru, Uruguai e Brasil – entre os periódicos brasileiros, destacam-se Lanterna verdeDiretrizesCorreio da Manhã, O Jornal e O CruzeiroDom Casmurro e Revista Acadêmica - onde publicou seu primeiro poema "Eu em ti".

Em 1940, casou-se com Lourival Fontes (1899-1967), então diretor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) da ditadura de Getúlio Vargas (1882-1954),  desempenhando um papel crucial nas relações entre o Estado Novo e os intelectuais.Com o segundo marido, viajou para o exterior em missão diplomática no Canadá e nos Estados Unidos, residindo em Nova York. Em seguida, mudou-se para o México, onde Fontes se tornou embaixador.

Tornou-se personalidade conhecida no México, onde fez amizade com os artistas David Siqueiros (1896-1974) e Rufino Tamayo (1899-1991), Frida Kahlo (1907-1954), Diego Rivera (1886-1957) e José Clemente Orozco (1883-1949) – os dois últimos a retrataram. Em 1952, foi a primeira mulher a ser condecorada com a Orden del Águila Azteca, concedida pelo Governo Mexicano, por suas conferências sobre a poeta Juana Inés de la Cruz (1648-1695).

Em 1953, o editor francês Pierre Seghers (1906-1987) publicou poemas Au-delà de toi, coletânea de poemas de Adalgisa Nery, com tradução de Francette Rio Branco. No mesmo ano, terminou o casamento de 13 anos com Lourival Fontes.

Cercada de inimizades, como o então governador Carlos Lacerda (1914-1977), e herdeira política de Getúlio Vargas (1882-1954), passou a dedicar-se a carreia de jornalista, assinando a coluna diária sobre política nacional e internacional, Retrato sem retoque, no jornal Última Hora de Samuel Wainer (1910-1980).

Em 1960, foi eleita deputada, com 8.900 votos, pelo Partido Socialista Brasileiro, então Estado da Guanabara. Sendo reeleita em 1962, desta vez pelo Partido Trabalhista Brasileiro, com mais de 9.000 votos. Em 1965, quando os partidos são dissolvidos e unificados, para o MDB, se reelegendo em 1966 com 15.800 votos -, até ter sua coluna no jornal censurada e seus direitos políticos cassados pelo golpe militar, em 1969.

Durante o período em que esteve envolvida com a política, Adalgisa Nery escreveu seu romance autobiográfico A imaginária, documento existencial no qual tratou dos anos normativos, marcada com ênfase pelo primeiro casamento.

Sem recursos próprios, Adalgisa morou na casa do filho mais novo, o artista plástico Emmanuel Nery e também na casa do jornalista e apresentador Flavio Cavalcanti (1923-1983). Em 1976, internou-se por espontânea vontade em uma clínica geriátrica Estância São José, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Após sofrer um acidente vascular cerebral, que lhe deixou afásica e hemiplégica, Adalgisa Nery faleceu no dia 7 de junho de 1980, aos 74 anos.

Sua obra é composta pelos livros:  A mulher ausente (poemas, 1940); Og (contos, 1943); Ar do deserto (poemas, 1943); Cantos de angústia (poemas, 1948); As fronteiras da quarta dimensão (poemas, 1952); A imaginária (romance, 1959); Mundos oscilantes (coletânea de poemas, 1962); Retrato sem retoque (crônicas, 1966); 22 menos 1 (contos, 1972); Neblina (romance, 1972); e Erosão (poemas, 1973).

O Arquivo Adalgisa Nery, doado pela escritora Ana Arruda Callado em 1996, encontra-se no Arquivo Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Após 35 anos de seu falecimento, a obra de Adalgisa Nery é republicada pela editora José Olympio, com curadoria e organização do poeta, escritor e jornalista Ramon Nunes Mello.

BIGtheme.net Joomla 3.3 Templates